A publicação semanal no Correio da Manhã, subscrita pelo presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), é algo que merece a atenção semanal dos Oficiais de Justiça; ou talvez não.
António Marçal fala-nos esta semana da Páscoa enquanto momento de paz, de reconciliação, esperança, harmonia e ressuscitação.
Diz assim:
«Na época pascal, que celebra a esperança, a renovação e a dignidade humana, importa lembrar que a ressurreição de um homem simples é, também, a proclamação do valor da vida comum.»
Ora, se na Páscoa se assinala a ressurreição, nos termos da crença religiosa, a comparação de Marçal, suscita nos Oficiais de Justiça uma reação estranha, porquanto, em termos laborais, os Oficiais de Justiça não sentem nenhuma ressurreição da classe, mesmo neste momento pascal.
A morte da carreira original não é vista, pela maioria, como uma oportunidade de renascimento posterior, mas tão-só como um enterramento ou, no mínimo, um colapso a que se segue um desmoronamento.
A reflexão de Marçal sobre o trabalho e sua colagem às solenidades pascais, constitui um exercício intelectual minimamente relevante, isto é, constitui um exercício desprezível, em todos os aspetos possíveis de análise.
Comparar o trabalho com crenças religiosas, quaisquer que elas sejam, constitui, logo à partida, um erro crasso. Mas afirmar que «Valorizar quem trabalha é resistir à lógica da exploração, é romper com a indiferença e afirmar que ninguém deve ser descartável. A cruz de hoje é o desequilíbrio social – a esperança pascal exige que não nos resignemos.» é comunicação pertinente, ou melhor: impertinente, uma vez que a descredibilização dos trabalhadores é muito significativa, tanto que nem qualquer raio de fé se torna suficiente para garantir o que quer que seja.
Marçal é dirigente do sindicato mais antigo e com maior número de associados, pelo que cada palavra, ou cada vírgula que introduza no seu discurso, é motivo de crítica e, também, de rejeição, desde logo quando confrontado com a realidade.
Esta direção do SFJ, está em vias de mudar e embora a mudança seja positiva, mais que não seja pela mudança em si, os Oficiais de Justiça ainda a veem como a continuidade de um percurso de Calvário, sem qualquer Ressurreição à vista.
Conclui Marçal o seu artigo afirmando que «Como lembra a Doutrina Social da Igreja, o trabalho não é mercadoria…», como se a tal doutrina da Igreja tivesse mesmo algo que ver com o trabalho e com os trabalhadores, ou se como estes estivessem dependentes de tal doutrina social para a sua emancipação laboral ou para a construção da sua vida condigna. Não, a doutrina da Igreja não interessa nada, absolutamente nada, aos trabalhadores, porque o trabalho destes não se mede em fé nem em caridade, embora as remunerações sejam sempre uma esmola e a crença num futuro melhor seja a ilusão que os guia.
E é nesta ambivalência que um sindicato se deve impor, separando a fé e a caridadezinha remuneratória de regras reais de verdadeira justiça social, de verdadeira dignidade humana, sem qualquer colagem ilusória.
A dois dias da entrada em vigor parcial da nova carreira, os trabalhadores Oficiais de Justiça estão cada vez mais próximos da entrada num Purgatório e será muito difícil que mantenham qualquer tipo de fé, mesmo neste momento especial de comemorações religiosas que distraem momentaneamente a atenção dos problemas.

Fonte: “artigo CM reproduzido na página do SFJ”.
