Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

Relatos intensos que ilustram o estado atual dos Oficiais de Justiça

      Chegam-nos, com muita frequência, relatos pessoais que denotam o estado de espírito e da vida dos Oficiais de Justiça.


      Hoje vamos reproduzir dois depoimentos que são desabafos pessoais mas que bem ilustram a vida real de dois Oficiais de Justiça que acabam por representar tantos outros.


      O primeiro desabafo refere-se ao projeto de Estatuto e o segundo ao dia-a-dia de um Oficial de Justiça.


      Se o primeiro relato ilustra o desânimo, o segundo não só ilustra esse mesmo desânimo como também um estado de consciência, perante a crueza da vida, simplesmente arrepiante.


      Leiam os dois.


      ((1)) Depoimento/desabafo/relato:


      «Eu dou comigo a pensar!! Valeu-me o sacrifício de andar de terra em terra com as malas sempre atrás de mim, a pagar quartos e casa e estar anos e ANOS longe da família, sempre na esperança  de que ia valer a pena os sacrifícios do desgaste  que esta profissão nos impõe, da privação de não podermos ver e acompanhar o crescimento dos nossos filhos, o convívio com eles, esposa e restante família e amigos, etc.,  tudo pelo trabalho. Para depois tudo ruir em duas dúzias de folhas escritas por alguém que não deve gostar muito de nós ou não nos reconhece qualquer mérito. Cansado desta GENTE toda... Que nos usou, explorou, e agora não nos respeita e nos quer ainda “assassinar profissionalmente”.


      Nunca nos deram hipótese de progredir na carreira. Congelaram progressões, subidas de escalões, ordenados etc. E agora oferecem-nos estes estatutos como se fossemos LIXO DESCARTÁVEL, dando com irrelevante tudo o que demos de nós à justiça.


      Feliz dia. Fico por aqui...»


      ((2)) Depoimento/desabafo/relato:


      «Sou OJ, vivo agora em casa camarária após despedimento (Covid19) da minha mulher. Um filho que amo mais que a mim próprio. Ganho 1054 €/mês e aturo merdeiros e presunçosos mais de 9 horas por dia, desempenhando funções que são desconsideradas, mas sem as quais apregoam que a justiça não existe.


      Chego a casa, agarro na mota, e das 19:30 h às 01:00 h faço Glovo.


      Janto de 2ª a Domingo, há já 3 anos, no “fast food” com o qual faço mais entregas, a título de compensação.


      Nunca esquecerei a solidariedade de um companheiro perante um "merdas" (como me sinto), todo encharcado, a entregar-lhe uma refeição.


      Obrigado companheiro, nunca te esquecerei. Pagaste o triplo de gorjeta do que pagaste pela refeição. E o meu rapaz adorou os brinquedos.


      P.S.: Claro que quase todos os meses penso numa corda à volta do pescoço e uma tabuleta ao peito escrita a agradecer ao Estado as constantes alterações das "regras do jogo". O sítio, esse, uma janela do meu tribunal.»


      Quanto à referência à empresa de entregas “Glovo”, por parte deste Oficial de Justiça, esta é uma das várias que operam no serviço de entregas, mas não é só nesta área que os Oficiais de Justiça atuam. Fora das horas de expediente, é hoje muito comum que muitos tenham um segundo emprego ou uma atividade onde vão buscar um complemento ao seu salário, especialmente em serviços a tempo parcial ou em horário livre, como o serviço TVDE, e muitos também no Alojamento Local, havendo até relatos de alguns que vivem na garagem enquanto arrendam a sua habitação.


      E fazem-no por necessidade.


      Como o Estatuto não permite e a DGAJ deve autorizar previamente, apesar de muitos estarem perfeitamente autorizados a exercerem outras atividades remuneradas, a maior parte opta por exercer atividades que estão em nome dos cônjuges ou de outros familiares.


      Estamos, pois, perante uma profissão que se tornou miserável e sem futuro, na qual, a maior parte detém idades acima dos 50 anos, já não se atrevendo a mudar de profissão, embora diariamente o anseiem.


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