Hoje é o dia da véspera das eleições autárquicas e, por conseguinte, corresponde a um dia sem campanha política.
Este dia é bem compreendido pelos portugueses como sendo o dia de reflexão no qual todos se abstêm de fazer qualquer referência política, seja de que tipo for.
Esta sadia postura é muito louvável. Depois de tantos dias em que os partidos e as coligações se digladiam por tudo e por nada, mas muito, é muito relevante que haja este momento de pausa; de acalmia, de respiração profunda e, claro, de reflexão individual sobre em quem se há de votar no dia seguinte.
No entanto, no presente, antes mesmo da preocupação sobre a reflexão de em quem se há de votar, há que refletir, primeiramente, se se há de votar simplesmente.
A abstenção é, hoje, o aspeto que mais deve preocupar todos os cidadãos, em face da muito baixa participação.
É assustador que a maioria dos portugueses se demita da sua função de eleitor, considerando até essa postura como a mais correta em face daquilo que consideram o descalabro da credibilidade política dos governantes.
Ora, com essa demissão maioritária, resta a escolha que a minoria faz e é com essa escolha dessa minoria que todos, a minoria e a maioria, têm que viver nos anos subsequentes.
É comum ouvir-se coisas assim: “Não voto porque o meu voto não serve para nada” ou “São todos iguais” e “Quero lá saber, tenho coisas mais importantes com que me preocupar”.
Este género de afirmações constitui uma ilusão.
O voto de cada um conta e conta porque é somado a tantos outros. Claro que individualmente, isoladamente, não conta para nada, mas não há votos assim: isolados. Todos os votos se somam, pelo que todos contam.
Quanto à generalização de que todos os políticos ou candidatos são iguais, é uma generalização que não pode corresponder à realidade, especialmente nos tempos presentes em que há, como nunca antes houve, tanta variedade de participantes; tantos partidos, coligações e até listas de independentes. Ao fim e ao cabo, são tantos os candidatos de cada freguesia e de cada município, que considerá-los todos iguais é uma generalização que só pode estar errada, porque, simplesmente, não podem ser todos iguais, porque são mesmo muitos.
Por fim, a afirmação comummente ouvida de que se tem coisas mais importantes para fazer ou com que se preocupar, constitui também um erro, porque a ida à secção de voto, em todo um grande dia – entre as 08H00 e as 20H00 – não constitui um entrave relevante e permite fazer uma coisa muito importante: decidir; decidir somar-se aos que decidem e não subtrair-se.
Deixar as decisões para tantos anos nas mãos dos outros; nas mãos de uns poucos, desistindo da única oportunidade de participação na decisão, constitui um claro erro individual e um problema comum de declínio da Democracia.
Por tudo isto, neste dia de reflexão, não podemos deixar de refletir sobre a participação neste momento de decisão e, claro está, somos impelidos a apelar a que todos participem e optem.
As opções disponíveis até são bastantes; há uma boa variedade de listas, e, certamente, alguma lhe há de agradar mais do que outras, dessa forma optando; dessa forma exercendo esse direito que tanto custou a conquistar para todos; somando-se aos que decidem e engrandecendo o sistema; tornando-o mais perfeito, uma vez que a falta de participação o vai tornando cada vez mais imperfeito, portanto, também mais injusto e até mesmo mais perigoso.

