Quem trabalha, no dia-a-dia, com os Oficiais de Justiça, sabe reconhecer o trabalho que desenvolvem, o esforço e as muitas horas que dedicam à profissão, ainda que sem nenhum retorno ou reconhecimento; apenas com o retorno individual da satisfação pessoal de um trabalho bem feito.
Já quem trabalha no Terreiro do Paço, decidindo a vida e o futuro dos Oficiais de Justiça, desconhece o valor destes desgastados profissionais, embora alguns desses decisores até tenham começado na área da Justiça sendo, precisamente, Oficiais de Justiça.
Aliás, é nesta profissão que também são cooptados inúmeros Oficiais de Justiça para exercerem tantas e tão diversificadas funções, seja ainda na área da Justiça, seja em qualquer outra área da Administração Pública. E atualmente contam-se cerca de mil nestas circunstâncias (cerca de 13% dos Oficiais de Justiça exercem funções fora dos tribunais e fora dos serviços do Ministério Público).
Vemos também como nestas eleições autárquicas em curso, tantos Oficiais de Justiça são convidados para integrar listas de candidaturas a todos os órgãos autárquicos, não só as integrando como as encabeçando, com todo o reconhecimento das populações.
Mas, no Terreiro do Paço, estes valiosos profissionais são meros peões numéricos.
Vem isto a propósito de um artigo de opinião recentemente publicado (19JUL) no jornal regional diário do Alentejo, sediado em Évora – o Diário do Sul.
Na página 4 deste Diário, subscrito por um advogado, que, anunciando o fim da sua longa carreira na advocacia, nada mais, nada menos do que 4 décadas de profissão, fez questão de difundir publicamente a sua opinião desses tantos anos de trabalho com Oficiais de Justiça.
Note-se que o advogado pôs fim à carreira e não mais precisará de se dirigir às secretarias para obter os bons préstimos dos Oficiais de Justiça, pelo que a sua opinião não pretende receber nada em troca, apenas pretende dar, e dar, precisamente no momento em que vai deixar de receber.
O título: «Na hora do adeus... Reconhecimento e homenagem aos senhores Funcionários Judiciais.»
E diz assim o artigo subscrito pelo advogado A. Póvoa Velez:
«Após quarenta anos de advogado está a chegar a hora de abandonar o exercício ativo da profissão e dedicar-me a outras atividades menos exigentes, mas igualmente estimulantes.
Nesta hora de despedida queria publicamente manifestar a minha homenagem e reconhecimento aos senhores Funcionários Judiciais, peça essencial no funcionamento de todo o sistema de justiça, mas que a justiça tantas vezes ignora e não valoriza.»
Note-se como bem sabe este advogado de longa carreira, que os Oficiais de Justiça são “peça essencial no funcionamento de todo o sistema de justiça” mas que, pese embora essa essencialidade, são ignorados e desvalorizados pela própria justiça.
Continuemos:
«Ao longo destes quarenta anos, deles, dos senhores Funcionários Judiciais, só guardo boas recordações pelo tanto que me ensinaram, pela forma como sempre me atenderam, pela compreensão com que desculparam e ocultaram os meus erros, pela simpatia que sempre me demonstraram e finalmente pela competência, profissionalismo e espírito de sacrifício e de humanidade que sempre revelaram no exercício das suas funções.»
Parámos aqui a citação apenas para que se possa bem atentar na afirmação final deste parágrafo.
E conclui a publicação assim:
«Uma boa parte do sucesso (?) da minha carreira a eles o devo e deles guardarei uma recordação que me acompanhará até ao fim. A todos um grande abraço.»
Veja abaixo o recorte do artigo do mencionado Diário.

