Hoje relatamos mais um caso de vida de um Oficial de Justiça, no qual é feita uma retrospetiva do seu percurso de vida (profissional, pessoal e familiar), que consideramos ser muito comum a tantos e, por tal motivo, a seguir vai reproduzido.
«Entrei para os tribunais em 1998, fez este ano 23 anos. Na fase de estágio comprei os códigos todos numa livraria, que me custaram um dinheiral: o Código de Processo Civil, o Código de Processo Penal, o Código do Trabalho e o Código das Custas. Estudei-os de ponta a ponta, afincadamente, sublinhei e anotei-os por todo o lado e fui colando, artigo a artigo, todas e as muitas alterações legislativas.
Realizei o exame, fiquei bem colocado na lista e num movimento bom, com vagas, até nem fui para muito longe de casa.
O serviço de sala, os papéis diários, o serviço externo e outras tarefas, acabaram por me fazer entrar de manhã, por volta das 08H00, e ao final do dia sair por volta das 20H00. Naquele tempo o serviço de sala tinha cerca de uma dúzia de marcações por dia, não havia computador na sala de audiências e na secção o computador que havia era partilhado. Por isso, para não deixar nada para trás, também aos sábados ia trabalhar.
Todo esse esforço levou a que não acompanhasse devidamente o crescimento dos meus filhos, que descuidasse completamente as relações familiares, tudo pela ilusão de que a aprendizagem um dia daria frutos e a carreira valia a pena.
A cada três anos uma mudança de escalão e a cada movimento a oportunidade da promoção, com a hipótese de aposentação a partir dos 55 anos de idade. As férias também compensavam em serviços de turno.
A profissão valia a pena e o esforço inicial, o estudo constante de todas as matérias, o prejuízo familiar, tudo isso haveria de se transformar em algo positivo, porque havia um futuro.
Veio a crise e até os Serviços Sociais do Ministério da Justiça retiraram, passando para a ADSE. As progressões a cada três anos congelaram, tal como as promoções e a aposentação deu um salto de uma dúzia de anos para a frente.
O futuro que previa e que me prometeram não existiu nem existe. Fui enganado. Hoje, arrependo-me de tudo, completamente de tudo. Arrependo-me de ter dado estes vinte e tal anos a uma carreira que em nada me retribuiu.
Ao fim destes 23 anos continuo na categoria de ingresso e ainda não consegui sequer chegar ao último escalão que é o que agora apenas ambiciono.
O Ministério da Justiça propõe um novo Estatuto em que continuarei assim, sem futuro.
Para mim, hoje, venha o sindicato que vier decretar uma greve, é algo que não me aquece nem me arrefece, porque greve já eu passei a fazer todos os dias. O meu esforço diário é, hoje, fazer precisamente o contrário do que antes fiz. Despreocupar-me e sair sempre à hora certa. Dispenso formações, ignoro as alterações, o meu mínimo é a resposta àquilo que me dão e àquilo que me querem continuar a dar.
A banda Deolinda cantava “Que parva que eu sou”, mas aqui vos digo que o meu fado é agora outro: “Que parvo que fui”.»

