Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

Que Parvo que Fui

      Hoje relatamos mais um caso de vida de um Oficial de Justiça, no qual é feita uma retrospetiva do seu percurso de vida (profissional, pessoal e familiar), que consideramos ser muito comum a tantos e, por tal motivo, a seguir vai reproduzido.


      «Entrei para os tribunais em 1998, fez este ano 23 anos. Na fase de estágio comprei os códigos todos numa livraria, que me custaram um dinheiral: o Código de Processo Civil, o Código de Processo Penal, o Código do Trabalho e o Código das Custas. Estudei-os de ponta a ponta, afincadamente, sublinhei e anotei-os por todo o lado e fui colando, artigo a artigo, todas e as muitas alterações legislativas.


      Realizei o exame, fiquei bem colocado na lista e num movimento bom, com vagas, até nem fui para muito longe de casa.


      O serviço de sala, os papéis diários, o serviço externo e outras tarefas, acabaram por me fazer entrar de manhã, por volta das 08H00, e ao final do dia sair por volta das 20H00. Naquele tempo o serviço de sala tinha cerca de uma dúzia de marcações por dia, não havia computador na sala de audiências e na secção o computador que havia era partilhado. Por isso, para não deixar nada para trás, também aos sábados ia trabalhar.


      Todo esse esforço levou a que não acompanhasse devidamente o crescimento dos meus filhos, que descuidasse completamente as relações familiares, tudo pela ilusão de que a aprendizagem um dia daria frutos e a carreira valia a pena.


      A cada três anos uma mudança de escalão e a cada movimento a oportunidade da promoção, com a hipótese de aposentação a partir dos 55 anos de idade. As férias também compensavam em serviços de turno.


      A profissão valia a pena e o esforço inicial, o estudo constante de todas as matérias, o prejuízo familiar, tudo isso haveria de se transformar em algo positivo, porque havia um futuro.


      Veio a crise e até os Serviços Sociais do Ministério da Justiça retiraram, passando para a ADSE. As progressões a cada três anos congelaram, tal como as promoções e a aposentação deu um salto de uma dúzia de anos para a frente.


      O futuro que previa e que me prometeram não existiu nem existe. Fui enganado. Hoje, arrependo-me de tudo, completamente de tudo. Arrependo-me de ter dado estes vinte e tal anos a uma carreira que em nada me retribuiu.


      Ao fim destes 23 anos continuo na categoria de ingresso e ainda não consegui sequer chegar ao último escalão que é o que agora apenas ambiciono.


      O Ministério da Justiça propõe um novo Estatuto em que continuarei assim, sem futuro.


      Para mim, hoje, venha o sindicato que vier decretar uma greve, é algo que não me aquece nem me arrefece, porque greve já eu passei a fazer todos os dias. O meu esforço diário é, hoje, fazer precisamente o contrário do que antes fiz. Despreocupar-me e sair sempre à hora certa. Dispenso formações, ignoro as alterações, o meu mínimo é a resposta àquilo que me dão e àquilo que me querem continuar a dar.


      A banda Deolinda cantava “Que parva que eu sou”, mas aqui vos digo que o meu fado é agora outro: “Que parvo que fui”.»


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