As lutas dos dias de hoje neste país fazem-se, essencialmente, nas redes sociais, mas o regime também não é o mesmo daquele que existiu durante meio século antes da Revolução de Abril.
O regime fascista, que muitos preferem amaciar classificando-o apenas de ditadura, coartava, e de forma violenta, tudo e todos, pelo que a reação de alguns contra tal regime não só carecia de ações igualmente violentas, como ainda de grande coragem, pelo risco associado.
Se um indivíduo com um simples panfleto, ou mesmo com um pensamento que fosse, ou uma opinião, estava sujeito a cadeia e mesmo tortura, imagine-se um lançamento de panfletos sobre a cidade de Lisboa num avião da TAP desviado. Sim, isto foi feito por um dos maiores lutadores antifascistas portugueses: Camilo Mortágua.
Morreu ontem aos 90 anos de idade.
Atualmente, os mais novos, reconhecerão com mais facilidade as filhas, as duas deputadas do BE, que, afinal, prosseguem a mesma luta antifascista do pai, embora em moldes adaptados à atualidade.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou o seu pesar às deputadas Mariana e Joana Mortágua pela morte do pai, recordando-o como um “lutador contra a ditadura”.
Numa nota publicada no sítio oficial da Presidência da República na Internet, o Presidente recorda Camilo Mortágua como um “lutador contra a ditadura durante muitas décadas do século passado” que morreu hoje “ao fim de uma longa e multifacetada vida ao serviço dos ideais que abraçava”.
A 10 de junho de 2005, foi condecorado, pelo Presidente da República Jorge Sampaio, com o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade da República Portuguesa.
Natural de Oliveira de Azeméis, Camilo Mortágua emigrou para a Venezuela em 1951, com 17 anos. Foi a partir desse país que começou a lutar contra o fascismo em Portugal.
Integrou a Direção Revolucionária Ibérica de Libertação (DRIL) e participou no assalto ao navio Santa Maria, em janeiro de 1961, uma das mais vistosas ações, uma vez que o paquete Santa Maria era o maior e melhor navio da Companhia Colonial de Navegação, dando assim início à denominada “Operação Dulcineia”.
O navio foi tomado de assalto, e esteve sequestrado durante treze dias, acabando desviado para o Brasil e tendo o nome sido mudado de “Santa Maria” para “Santa Liberdade” – veja imagem abaixo.
Durante a ação, um dos oficiais a bordo ofereceu resistência e foi morto a tiro; os restantes renderam-se.
A “Operação Dulcineia” consistia num plano em que os 23 assaltantes (portugueses e espanhóis) se dirigiriam com o navio à ilha espanhola de Fernando Pó, no golfo da Guiné, e a partir daí atacariam Luanda, considerando que esse seria o ponto de partida para o derrube dos governos fascistas de Lisboa e Madrid. Um plano megalómano e quixotesco que, embora condenado ao fracasso, chamaria a atenção internacional para as ditaduras ibéricas, especialmente para a de Salazar.
Note-se que o navio transportava 600 turistas em viagem para Miami e mais de 300 tripulantes.
Apesar do êxito da ação, a operação delineada fracassou quando o navio foi avistado por um cargueiro dinamarquês, que avisou a guarda costeira americana. Daí até à chegada dos navios de guerra foi um ápice. Vendo que tudo estava perdido, o comandante da operação, Henrique Galvão, decidiu rumar ao Recife e render-se às autoridades brasileiras, pedindo asilo político, que foi aceite.
Mortágua desapareceu. Viveu na clandestinidade no Brasil e depois em França.

No mesmo ano do assalto ao Santa Maria, em novembro, Camilo Mortágua, juntamente com o revolucionário Palma Inácio e outros antifascistas, desviou, à mão-armada, um avião da TAP no percurso entre Casablanca (Marrocos) e Lisboa, com o objetivo de que voasse a baixa altitude para largar 100.000 panfletos contra o regime salazarista e a denunciar a farsa das eleições para a Assembleia Nacional que se iam realizar em dois dias, o que aconteceu nas cidades de Lisboa, Setúbal, Barreiro, Beja e Faro.
Foi a “Operação Vagô”, que marca o primeiro desvio de um avião comercial da história da aviação civil. O avião regressou a África, aterrando em Tânger.
Tendo chegado a acordo com a tripulação do avião para nunca mostrarem as armas para não assustar os passageiros, estes não se aperceberam de nada, tanto mais que as hospedeiras começaram a abrir garrafas de champanhe e a servir outras bebidas alcoólicas, como se de uma festa se tratasse, tendo os passageiros, maioritariamente norte-americanos, se apercebido que, afinal, não tinham chegado a Lisboa quando saíram em Tânger.

No ano seguinte, logo no dia 1 de janeiro de 1962, participou no assalto ao quartel de Beja e, já em 1967, veio do exílio em França a Portugal, para o assalto à filial do Banco de Portugal na Figueira da Foz, para obter financiamento do Estado para a atividade antifascista. Foi a “Operação Mondego”, cujo propósito era a de “recuperação de fundos”, como se classificava o assalto, dando origem no mês seguinte à Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR).
A “Operação Mondego” foi levada a cabo depois de estudar e obter informação sobre as agências do Banco de Portugal por todo o país, como a circulação do dinheiro e os montantes que ali se encontrariam.
Para a opção pela Figueira da Foz foi também decisivo o plano de fuga que tinha de ser por avião. Palma Inácio, o piloto, começou a frequentar o aeródromo municipal de Coimbra (em Cernache), fazendo-se passar por um arqueólogo brasileiro interessado em fazer o reconhecimento aéreo das ruínas romanas de Conímbriga, pretendendo alugar uma aeronave para o efeito.
Chegaram a pensar aterrar em Espanha, mas era demasiado óbvio, pelo que acabaram por aterrar numa pista improvisada no Algarve e seguir de carro para Espanha e daí para França.
Ao fugirem a baixa altitude, elidindo o alcance dos radares, presumiam que a PIDE assumiria que tinham saído do país a voar, não se preocupando em controlar as estradas, o que se verificou. Ainda assim, tal era o rigor do plano, no Algarve também trocaram de carro, deixando o primeiro perto de Lagos, para dar a ideia de que teriam seguido de barco para Marrocos. Portanto, usaram três carros: o primeiro para ir até ao aeródromo (a cerca de 60 km da Figueira da Foz), o da avioneta até Lagos e o último para Espanha.
Tinham também um cúmplice que serrou os cabos telefónicos que chegavam à Figueira da Foz e, numa época em que imperava o telefone fixo com fios – sim, houve um tempo em que não havia internet nem telemóveis –, toda a zona da Figueira da Foz ficou sem comunicações.
Chegados ao aeródromo, prenderam todos os presentes: o diretor, os guardas e ainda 3 pedreiros que ali se encontravam a trabalhavam, não sem antes terem obrigado um guarda a encher o depósito da avioneta Auster.
Outra curiosidade: a “Operação Mondego” teve de ser adiada, porque, como não ligavam nada às notícias de cariz religioso, depararam-se com uma visita do Papa a 13 de maio a Fátima, o que acarretou um enorme reforço de policiamento na zona Centro, acabando por ter de adiar para logo depois, para o dia 17 de maio.
O assalto demorou uma eternidade: 25 minutos, bem mais do que estava pensado, pois o cofre só abria com duas chaves, na posse de duas pessoas diferentes e tiveram de ficar à espera que a segunda chegasse, pois tinha saído para tratar de um assunto.
Depois de encerrarem todos os presentes na agência do Banco de Portugal, no cofre e nos escritórios, saíram com sacos às costas com 29 milhões de Escudos, uma quantia muito significativa (seria o equivalente a cerca de 10 milhões de Euros de hoje), tudo em notas de 500 Escudos, mas a maior parte ainda não tinha sido posta em circulação, isto é, em termos técnicos, não tinha curso legal, estas notas ditas "virgens" tinham o mesmo valor que dinheiro falso e os números das séries estavam todas identificadas pela polícia e no sistema bancário, pelo que eram facilmente rastreáveis em qualquer parte do Mundo. Ainda assim, Mortágua em Israel e Palma Inácio nos Estados Unidos ainda tentaram dar vazão às notas, designadamente, tentando comprar armas, mas sem sucesso.
Dos 29 milhões de Escudos, apenas 7 milhões e meio eram notas usadas que puderam utilizar (cerca de 2,5 milhões de euros aos dias de hoje).
No regresso, Palma Inácio foi detido no aeroporto de Orly, a pedido das autoridades portuguesas. Contudo, um tribunal de Paris recusou-se a dar seguimento ao pedido de extradição para Portugal, confirmando que o assalto tivera intuitos de caráter político.
Camilo Mortágua acabou julgado à revelia e condenado a 20 anos de prisão, a maior pena que foi aplicada.

Depois do 25 de Abril, Camilo Mortágua continuou a luta, tendo participado, em abril de 1975, na ocupação da herdade da Torre Bela, no Ribatejo, herdade esta que correspondia à maior área de terra agrícola murada de Portugal, com 1700 hectares, propriedade do Duque de Lafões, ocupação que está documentada no filme “Torre Bela” realizado por Thomas Harlan, filho do cineasta Veit Harlan, no qual aparecem personalidades como o cantor José Afonso.
Da ocupação resultou a criação da cooperativa Torre Bela, passando Camilo Mortágua a concentrar a sua atenção no desenvolvimento rural e local, desde a vila de Alvito, no Alentejo, onde acabou por se fixar nos anos 80 do século XX e da qual Mariana e Joana Mortágua são naturais.
Nos últimos anos trabalhou na conceção e implementação de programas e projetos de desenvolvimento local, assim como na mobilização de pessoas e grupos socialmente desprotegidos e na animação e organização de comunidades em risco de exclusão.
Fundou a Associação Terras Dentro, nas Alcáçovas, foi presidente da DELOS Constellation, Association International pour le Développement Local Soutenable (1994-2002); co-fundador e primeiro Presidente da ACVER, Associação Internacional para o Desenvolvimento e Cooperação de Comunidades Rurais e presidiu a APURE, Associação para as Universidades Rurais Europeias.
Publicou, sempre com a “Esfera do Caos”, as suas memórias em dois volumes: “Andanças para a Liberdade, Volume I: 1934-1961” (2009) e “Andanças para a Liberdade, Volume II: 1961-1974” (2013). Entre as duas publicações das suas memórias, publicou: “Tem coisas, ti Manel, tem coisas, tem coisas más de entender… Mandaram fazer a açorda, e agora nã a querem comer!” (2010).
De entre os muitos inimigos de Salazar, destacam-se os que lutaram de armas na mão contra o fascismo do “Estado Novo”, os últimos revolucionários românticos a quem se devem os golpes mais espetaculares que abalaram a ditadura, são eles: Camilo Mortágua e Hermínio da Palma Inácio.
Em entrevista à Rádio Campanário (Vila Viçosa), Camilo admitiu que hoje o apelidam de coisas que vão desde revolucionário, a terrorista, passando por assaltante, e afirmou: “eu nunca ataquei pessoas” em nome da liberdade, “atacava o sistema, atacava a ditadura, se não houvesse ditadura e prisão só por pensar.”
Abordado sobre a importância das tertúlias no afastamento dos condicionamentos ao pensamento e sobre a possibilidade de pensarmos todos da mesma forma, referiu: “a nossa obrigação como seres humanos é fazer com que todos os humanos respeitem os princípios que são entendidos como os valores da Humanidade.”
“Eu sempre parti do princípio que acabado o 25 de Abril, quem se tinha batido até aí não tinha razão nenhuma para deixar de se bater. A vida continuava, assim como os problemas e, por isso, é preciso mostrar que “quem se bateu contra a ditadura, não se batia apenas contra pessoas, batia-se por princípios.”
Na opinião de Camilo Mortágua, “se houver uma ditadura violenta que prende e que mata, todos os meios se justificam para lutar contra ela”, concluindo que “sempre que eu possa exprimir-me e não seja preso por isso, não se justifica nenhuma ação violenta”.
O título do nosso artigo de hoje corresponde à inscrição na camisola de Camilo Mortágua, na fotografia abaixo, uma camisola preta que não diz “Justiça para quem nela trabalha!”, mas diz precisamente a mesma coisa, embora com outras palavras, com as palavras do Zeca Afonso: “Mas o que é preciso é criar desassossego. Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado!”.

Fontes: entre muitas outras: “Rádio Campanário de Vila Viçosa”.
