José Bomtempo, cofundador e diretor criativo executivo da Bar Ogilvy, subscreve esta semana na publicação "Meios e Publicidade", a sua visão da justiça em Portugal. Vai a seguir reproduzido o artigo contendo a sua perceção que, afinal, está em linha com a de tantos outros cidadãos.
«E se a justiça deixasse de ser sinónimo de morosidade e opacidade, para se tornar uma marca de confiança? Uma justiça transparente seria um dos maiores “rebrandings” que Portugal poderia fazer.
Sempre que passo por um tribunal, sinto-me numa estação ferroviária em atraso permanente: corredores cheios, processos acumulados e rostos exaustos. A justiça, entre nós, é burocracia de pedra. Um sistema que se diz cego, mas que tropeça nas próprias vendas.
É por isso que volto sempre àquela cidade longínqua, a 50 mil anos-luz, onde a justiça é outra coisa. Não um fardo, mas um ato de cuidado coletivo. Não um mecanismo que pune tarde demais, mas um ecossistema que previne, repara e reintegra.
Ali, os julgamentos são rápidos, transparentes e compreensíveis. As provas são digitais e invioláveis, inscritas em registos que ninguém manipula. Os juízes não passam noites a folhear milhares de páginas – têm assistentes inteligentes que filtram dados, libertando-os para o essencial: interpretar, ponderar e decidir. O tempo deixa de ser inimigo da justiça e transforma-se em aliado.
As penas não prendem tantos corpos, mas reorientam consciências. O pior castigo não é a cela – é a exclusão do acesso ao espaço aumentado da cidade. Quem viola a confiança fica desligado das ferramentas que todos consideram essenciais. É castigo que dói sem desumanizar. A prisão física quase não existe; em vez disso, há reprogramação relacional. A justiça não segrega, reintegra.
Mas o mais impressionante é a confiança coletiva. Nessa cidade não se vive com medo do algoritmo controlador, mas com a certeza de que o sistema protege, não vigia. A justiça é percebida como marca de confiança pública. E isso muda tudo: a reputação da cidade assenta num sistema legal fiável – “branding” no estado puro.
Portugal, pelo contrário, continua a exportar folclore enquanto convive com um sistema judicial lento e opaco. Já todos sabemos que uma marca não se constrói com slogans e pastéis de nata, constrói-se com credibilidade de país sério. E não há credibilidade sem justiça que funcione.
Imagine-se o que aconteceria se adotássemos parte dessa visão distante: inteligência artificial para triagem de processos, acelerando decisões. “Blockchain” judicial para garantir transparência absoluta na cadeia de provas. Tribunais digitais para causas simples, acessíveis a todos. Penas restaurativas que não empurram para a reincidência, mas para a reinserção.
Tudo isto já é possível, não em 50 mil anos-luz, mas aqui e agora. Falta-nos coragem política, falta-nos visão estratégica e tratar a justiça como ativo de marca.
Se queremos cidades emocionalmente credíveis, precisamos de mais do que discurso. Precisamos mostrar ao mundo que é possível viver num lugar onde a justiça não adoece nem adia, mas cura e aproxima.
A cidade distante de que falo, dizem que não existe, mas quem o diz nunca daqui saiu. Talvez Portugal ainda não tenha percebido que não há marca mais poderosa do que a confiança. Uma cidade só é desejável quando os que nela vivem acreditam que a lei não é obstáculo, mas espaço seguro de pertença.
Portugal precisa de justiça – não só como sistema, mas como identidade. Só então deixará de ser fachada para se tornar experiência.»
O bolo-de-arroz está muito seco.

Fonte: "Meios e Publicidade".
