Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

“Parece, por vezes, que estamos a perder a memória”

      «A História ensina-nos que as democracias raramente morrem de um dia para o outro. Vão sendo corroídas quando o discurso de ódio se torna normal, quando a mentira passa por verdade e quando a indiferença substitui a memória.

      No passado fim de semana, os alemães do estado federal da Saxónia-Anhalt, no leste da Alemanha, deram uma maioria expressiva ao partido de extrema-direita radical e neonazi AfD (Alternativa para a Alemanha). Daqui a duas semanas haverá novos atos eleitorais e, num deles, este partido de inspiração neonazi surge à frente nas pesquisas.

      Sei que este crescimento de forças extremistas, totalitárias e inimigas da Democracia não é um fenómeno exclusivamente alemão. Está a acontecer em vários países da Europa e das Américas, alimentado pelo medo, pela insegurança, pela desilusão com a política e pela incapacidade das democracias em responder a problemas reais. Mas o que mais me perturba é que uma vitória como a do passado domingo aconteça precisamente na Alemanha, país onde o nazismo deixou uma das páginas mais negras da História e onde o Holocausto foi levado à escala industrial.

      Parece, por vezes, que estamos a perder a memória.

      Como é possível esquecer a perseguição e o assassinato de milhões de pessoas, incluindo crianças, em campos de concentração, câmaras de gás e valas comuns, privadas até da dignidade de uma morte humana? Como é possível que o povo alemão, que viveu os horrores do nazismo, não tenha conseguido transmitir plenamente às novas gerações a barbárie e o terror que Hitler semeou pela Europa, escravizando e assassinando povos de países que conquistou pela força no auge do III Reich?

      Dirá o leitor que esta é uma visão exagerada e que a AfD, na Alemanha, o Chega em Portugal, o Vox em Espanha, o Rassemblement National em França e o Reform no Reino Unido nada têm a ver com o nazismo ou com o fascismo. Puro engano. Não afirmo que sejam cópias históricas desses regimes, mas é impossível ignorar que muitos destes movimentos recuperam discursos, métodos e valores que lhes são familiares: a procura de bodes expiatórios, a demonização do estrangeiro, a intolerância perante a diferença, o culto da força, a desconfiança das instituições e o ataque aos direitos fundamentais.

      A História ensina-nos que as democracias raramente morrem de um dia para o outro. Vão sendo corroídas quando o discurso de ódio se torna normal, quando a mentira passa por verdade e quando a indiferença substitui a memória.

      É por isso que o perigo não está apenas na extrema-direita. Está também na nossa capacidade de nos habituarmos a ela. Quando deixamos de nos indignar, começamos a abrir-lhe a porta. E quando a Democracia já não é defendida, pode ser tarde demais para a recuperar.»

      Fonte: reprodução do artigo de Roberto Almada, intitulado “Não Aprendemos Nada?”, publicado no “Diário de Notícias da Madeira” e no “EsquerdaNet”.

0