Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
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Os portugueses não são lusos mas ilusos

      Numa conferência na Fundação Gulbenkian, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a propósito das reivindicações sobre a contagem do tempo de congelamento, afirmou que os portugueses têm duas ilusões: a primeira “ilusão é achar que podemos voltar ao ponto antes da crise” e “a segunda ilusão é achar que se pode olhar para os tempos pós-crise da mesma forma que se olhava antes, como se não tivesse havido crise. A crise deixou traços profundos e temos de olhar para eles”.


      E não é que tem toda a razão? Os portugueses são de facto uns sonhadores e deixam-se levar por todo o tipo de ilusões, até pela ilusão de que é bom ter um presidente que passa o tempo a iludir os portugueses, seja com os beijinhos e abraços ou com as “selfies”. Os portugueses não têm só duas ilusões, têm mais e outra delas, para além daquelas, é acreditar que têm representantes que são capazes de os representar de facto, zelando pelas suas vidas e pelos dos seus descendentes, para que todos possam ter uma vida digna, na realidade e não apenas a que consta dos preceitos constitucionais.


      De facto, os portugueses deixam-se embarcar constantemente em ilusões, em sonhos e devaneios vários, nos quais colocam a ambição de ter uma vida, não boa mas apenas medianamente melhor e quando veem que já não a conseguem para si, após uma vida inglória, chegam até a sonhá-la para os seus filhos e netos e chegam também a acreditar que os sorridentes políticos nas feiras dizem sempre a verdade e que com os abraços e com as fotografias em todos os telemóveis, o povo é mesmo feliz.


      Na Coreia do Norte, a imagem do “Grande Líder” também está por todo o lado, tal como em Portugal a imagem do presidente está quase em cada telemóvel, nos bolsos de quase todos os portugueses. E porquê? Porque os portugueses fantasiam que os primeiros-ministros ou os presidentes seguintes são melhores do que os anteriores e, imbuídos desta ilusão, aspiram a uma vida melhor. Mas qual vida melhor? Seus ilusos!


      Aquilo que o presidente que representa todos os portugueses disse na casa e obra nascida da ilusão do Senhor Gulbenkian, é que os portugueses não são lusos mas ilusos e que as suas ambições, os seus desejos de uma vida um pouco melhor, de um dia a dia melhorado, após tantos negros anos, é uma mera ilusão; aliás, melhor: são duas meras ilusões.


      Marcelo Rebelo de Sousa tem também toda a razão quando diz que “a crise deixou traços profundos e temos de olhar para eles”; sim, é necessário olhar para esses traços profundos mas não só para os traços mas para a carne onde os mesmos estão vincados; para essas cicatrizes ainda sangrantes que quase todos os portugueses portam, porque de facto a crise não deixou traços profundos desenhados no ar mas na carne dos portugueses, especialmente na carne dos trabalhadores portugueses que viram uma crise que não era sua, roubar-lhe o parco vencimento, roubar-lhe a casa, o carro, até a família, atafulhando os tribunais de insolvências de empresas mas também de pessoas singulares e milhões de execuções e mais milhões de penhoras, não por delírios esbanjadores; não por viverem acima das suas posses mas porque tiveram que pagar por aqueles que viviam acima e em cima das suas posses; das posses dos trabalhadores ilusos.


      Mas não, senhor presidente, as fotografias no telemóvel não fazem da vida dos portugueses um sítio onde se queira ou se possa viver; não é com o abraço, a palavra fácil e a presença em cada telejornal que os portugueses vivem melhor. Desiluda-se, senhor presidente, porque também vive na ilusão de que os portugueses continuarão o seu caminho de ficção acreditando que vivem no melhor dos mundos, conduzidos pela sua sempre pronta e estendida mão. É possível que muitos se iludam e assim continuem mas não será possível iludir todos nem sempre.


      E no entanto, tem razão, os portugueses continuam, como sempre, a sonhar pelo regresso de D. Sebastião, teimando em não acreditar que não regressará nem que esteja muito nevoeiro.


      E se na segunda-feira o presidente da República caracterizava os portugueses como ilusos, pelas suas aspirações, ainda ontem o repetia, já na Aula Magna da Universidade de Lisboa, abordando a ilusão, que também tanto preza e pratica, da caridadezinha devida aos portugueses que devem ser generosos e agradecidos, de preferência com vénia, com quem lhes dá esmola.


      Marcelo Rebelo de Sousa elogiou a caridade religiosa da Igreja, no lançamento de um livro cujo título é “Portugal Católico…”, que até prefaciou, afirmando que todos devemos muito a esse ilusório Portugal católico. Disse mesmo assim: o Estado e a Nação “devem, no passado e no presente, muitíssimo ao Portugal cristão, ao Portugal católico”.


      Isto é, para além de devermos ao FMI, à Troika, aos Mercados, aos bancos… ainda devemos, e muitíssimo, à Igreja Católica.


      É graças a este alimento ilusório; a esta droga opiácea, injetada há muito e diretamente nas veias dos portugueses, e logo pelo próprio presidente da nação, que os portugueses são o que são, isto é, afinal, uns ilusos.


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      Caso não tenha reparado nas mensagens do presidente, aqui citadas, pode consultar a comunicação social, designadamente, seguindo as duas hiperligações que se indicam onde constam duas notícias sobre as citações aqui abordadas: “Expresso” e “Sapo24”.

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