Assistimos diariamente – nas redes sociais e também aqui, nos comentários aos artigos –, a uma elevada expressão de desagrado para com os sindicatos que representam os Oficiais de Justiça.
De ataque em ataque, cada um vai tentando desmotivar todos aqueles que pretende atingir, cavando trincheiras, de um lado e do outro, para guerrear uns contra os outros, como se fossem inimigos mútuos.
A loucura chegou a tal ponto que os Oficiais de Justiça atacam-se mutuamente, erguendo todo o tipo de argumentos para responsabilizar os sindicatos, isto é, os seus colegas, pelos infortúnios da vida da carreira e, consequentemente, das suas próprias vidas.
Ao mesmo tempo, apelam à união.
E ao mesmo tempo atacam também todos os outros, mas seus colegas de profissão, apelidando-os de tudo e mais alguma coisa. Se se destacam, são lambe-botas, se não se destacam, são burros e malandros.
O “outro” – aquele que está para além do “eu” – é sempre alvo de ataque, seja porque faz sol, seja porque não faz, por estar nublado.
Mais de sete mil e quinhentos indivíduos e todos se dão – genericamente – mal, apesar das aparentes e hipócritas relações mútuas.
Como é que se chegou a este estado de sítio?
Com a carreira destruída, a culpa é de uns e de outros, menos própria, mas especialmente daqueles que não fazem greve ou daqueles que só fazem greves, de um ou de outro sindicato, ou de ambos ao mesmo tempo. Mas minha é que não é (diz cada um deles).
Na verdade, o inimigo comum é o Governo – atual e do passado; de todos os passados. Mesmo quando os sindicatos conseguiram fazer inscrever normas nas leis da Assembleia da República, designadamente, nos orçamentos de Estado, para valorizar e resolver velhos problemas da carreira, sempre boicotou o Governo essas normas legais.
Não há dúvida nenhuma que do outro lado da trincheira está o Governo e não o colega nem os colegas dos sindicatos.
Passar o tempo todo a responsabilizar os sindicatos é insano.
Os sindicatos que representam os Oficiais de Justiça são compostos por Oficiais de Justiça e não por extraterrestres. Passar o tempo todo a atribuir culpas aos elementos dos sindicatos é, para além de desgastante, errado.
Já todos viram como ao longo dos últimos anos, especialmente desde quando os discursos de ódio passaram a inflamar as redes sociais, como foram surgindo fissuras na carreira.
Tais fissuras são um perfeito prenúncio de desmoronamento.
E o Governo aproveita-se dessas fissuras para ir dizendo que, de facto, o edifício tem que ir abaixo e tem que se construir algo novo, mas nem se dá ao trabalho de iniciar os trabalhos de demolição, porque são os próprios Oficiais de Justiça que se vão encarregando, cada vez mais, da sua auto demolição.
Estas revoltas e estas lutas fratricidas, entre pares, são muito convenientes ao Governo.
A carreira desmorona-se por vontade do Governo, é certo, mas também por falta de uma verdadeira união e solidariedade entre todos os mais de 7500 profissionais deste pais e de Macau.
A carreira foi levada a um ponto de rutura; a um beco sem saída, que, tal como tantas outras empresas públicas que se destruíram para poderem ser vendidas à iniciativa privada e tornarem-se fonte de enormes lucros; esta carreira dos Oficiais de Justiça vem sendo destruída com a mesma tática. E a estratégia passa também pelo guerrear interno.
Quer isto dizer que os Oficiais de Justiça, inadvertidamente, estão a trabalhar bem na contribuição da destruição da sua carreira, fazendo um bom jeito ao Governo, e preparando todos para a sensação de que qualquer tipo de proposta que seja apresentada, designadamente para o Estatuto, será bem-vinda, porque só deverá ser melhor do que tudo isto.
A crença de que uma proposta boa para o Estatuto, será a panaceia para todos os males, é o engodo do Governo e, mais recentemente, o engodo dos próprios Oficiais de Justiça.
Não há dúvida alguma de que os sindicatos – pontualmente – cometem alguns erros, lapsos e omissões (como toa a gente), mas isso não significa que devam ser cruxificados e apedrejados, significa apenas que precisam de ajuda; de toda a ajuda possível para poderem melhorar.
As críticas têm que ser construtivas – não há problema nenhum que sejam negativas, bem pelo contrário, pois com elas se aprende sempre mais –, mas têm que ser construtivas, isto é, têm que apontar o dedo e, e simultâneo, aportar a justificação e a alternativa.
Só com o fim da guerra interna é que poderá ser possível realizar uma operação especial de conquista, detendo uma verdadeira união e não a atual desunião.
Repetimos: o inimigo dos Oficiais de Justiça não está no colega do lado, nem nos sindicatos, mas – claramente – no Governo e, portanto, é este o foco que deve ser prosseguido e mais nenhum; sob pena de se dar continuidade ao antijogo que vem sendo feito pelo Governo e seus colaboracionistas.

