Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

Os efeitos que parecem não se notar, mas que tanto se impõem

      O apelo à greve, para que tivesse maior adesão e dimensão no dia de ontem, obteve resposta em muitas secções pelo país fora, que encerraram completamente.


      Mas já no dia anterior, na quinta-feira, entre outros, correu a notícia de que em Aveiro, o Juízo Central Criminal aderira à greve de todas as tardes do SOJ, provocando um adiamento num processo mediático, referindo toda a comunicação social que o motivo da não realização da diligência do sorteio para selecionar o tribunal de júri foi a greve dos Oficiais de Justiça.


      Independentemente da cobertura mediática e da concentração de esforços que permita uma maior ou menor adesão num determinado dia, o que é facto é que estas greves, assim marcadas e por tempo indeterminado, embora rompendo com o conceito clássico da greve, com início e fim, concentrada num determinado momento temporal, concreto e delimitado, acabou por se tornar uma nova ferramenta de luta que alia o protesto à conveniência pessoal.


      À conveniência pessoal, sim, e qual é o problema disso? Nenhum!


      Anos a fio de greves, isto é, de perda de muito dinheiro dos já parcos salários, permite com toda a razão e toda a justiça que o trabalhador, no mínimo, obtenha algum ganho compensatório, algum prazer na sua vida, já que dinheiro vai perder, aliás, vai continuar a perder e muito.


      Os críticos desta greve contínua e à escolha de cada um, alegam que não surte efeito nenhum por não haver sacrifício, megafones e bandeiras a esvoaçar, como no passado, no entanto, tal espalhafato do passado nunca surtiu efeito, como bem se vê, designadamente, por ser ato passageiro, com dia marcado, com início e fim. Incomodava, sim, mas passava rapidamente e os governos habituaram-se a conviver bem com isso, como uma súbita chuvada que se espera um bocadinho para que passe e se possa continuar a caminhar fazendo o mesmo percurso.


      A falta de visibilidade da greve na rua, a falta das palavras de ordem gritadas repetidamente e a falta das bandeiras dos sindicatos, não tem nenhuma correlação com a falta de efeito.


      Esta greve diferente, que agora ocorre todos os dias, permite ao Governo obter a informação diária de que há Oficiais de Justiça diariamente em greve por todo o país.


      Agora um aqui, amanhã outro ali e ontem foi acolá; todos os dias são muitos dias e o Governo tem tanta noção disso – noção essa que escapa a tantos Oficiais de Justiça – que até fez com que o atual Governo pressionasse (e continue a pressionar) os sindicatos (ambos os sindicatos) para que terminem com as greves, que são diárias, que são por tempo indeterminado e que conseguiram escapar ao ataque dos serviços mínimos. Ora, se este novo tipo de greve fosse inócuo, como alguns dizem, por que razão se incomodaria o Governo com elas?


      Embora tantos Oficiais de Justiça desprezem as greves diárias à escolha de cada um e aleguem, por exemplo, que não há sacrifício de luta, como antigamente, mas mero interesse pessoal, circunstância que não conduz à desejada pressão, essa opinião revela-se redondamente errada e prova disso é o facto do Governo detestar esta greve e seus perniciosos efeitos diários, chegando ao ponto de ameaçar os sindicatos, chantageando-os dizendo que não negociaria sob tal pressão.


      Ora, é precisamente essa a pressão que interessa manter, para que o Governo se decida a debruçar-se, de facto e com toda a celeridade, sobre a carreira. Os Oficiais de Justiça acabarão, voluntariamente, isto é, e por sua própria iniciativa, com todas as greves, quando os problemas estiverem resolvidos e as reivindicações satisfeitas, uma vez que todas são justas, mais do que justas, justíssimas, e urgentes, pois a chegar, chegam com muitos anos de atraso.


      Por isso, se o Governo quer acabar com a pressão e o incómodo que as greves diárias lhe causam, tem boa solução e só lhe resta um caminho: resolver, o quanto antes, todas as questões que afetam a vida laboral dos Oficiais de Justiça.


      E aproveitando a notícia do adiamento do sorteio dos elementos que hão de integrar o tribunal de júri, vamos esclarecer o que estava em causa, uma vez que a constituição de um tribunal de júri não é coisa que suceda todos os dias e é desconhecida da maioria dos Oficiais de Justiça.


      O que iria suceder na quinta-feira era o sorteio de um grupo, em pré-seleção, de candidatos a jurados, escolhidos de entre os cadernos eleitorais dos 12 municípios que integram a Comarca de Aveiro. Seriam selecionados, aleatória e eletronicamente, 100 eleitores.


      Esses 100 selecionados teriam depois de responder a um inquérito, no prazo de cinco dias, para se ficar a saber se preenchem os requisitos de capacidade indispensáveis para o desempenho da função, sendo eliminados aqueles que não reúnam os requisitos.


      Seguidamente, haverá um segundo sorteio, tomando como base o número de respostas não rejeitadas, que para o efeito são encerradas em sobrescritos iguais, dos quais se tiram 18 e é deste grupo que irão sair, finalmente, os oito jurados (quatro efetivos e quatro suplentes), para o julgamento.


      Neste caso, foi o Ministério Público que pediu que o julgamento seja realizado por um tribunal de júri, o que quer dizer que para além dos três juízes de Direito que compõem o coletivo, haverá quatro jurados que podem ter participação ativa no julgamento, dirigindo perguntas ao arguido e às testemunhas, intervindo na decisão das questões da culpabilidade e da determinação da sanção.


      O adiamento da seleção dos 100 eleitores para, a final, se escolher os tais 8 jurados, ficou reagendada para a tarde do próximo dia 25, na próxima semana, isto é, precisamente para um momento em que os Oficiais de Justiça podem teimar em demonstrar e alertar para o incómodo em que vivem, ou mal vivem, as suas vidas, pois uma segunda vez aportará mais atenção e mais pressão sendo isso mesmo que os Oficiais de Justiça carecem.


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      Fontes: “Sol”, “Observador” e “Comunicado do Tribunal de Aveiro publicado na página do CSM”.

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