Todos ainda se recordam do tão propalado caso e processo conhecido como “e-Toupeira”, que abarcava, entre outros, a conduta de dois Oficiais de Justiça.
Como sabem, um dos Oficiais de Justiça foi absolvido e o outro condenado. O absolvido, o Júlio Loureiro, Oficial de Justiça no Tribunal de Guimarães, cinco anos depois da Polícia Judiciária (PJ) lhe entrar em casa, escreveu um texto de cunho pessoal, relatando como foram os seus dias mais negros a braços com a justiça, que bem conhece, quando era suspeito de crimes de corrupção passiva, favorecimento pessoal, violação do segredo de justiça, violação de segredo por funcionário, acesso indevido e violação do dever de sigilo.
O Oficial de Justiça conta como foi o seu calvário desde o dia 6 de março de 2018, quando uma equipa de inspetores da Polícia Judiciária lhe bateu à porta. Cinco anos depois, absolvido dos crimes de que era suspeito, desabafa, aponta o dedo e agradece no texto que a seguir vamos reproduzir; com o seu consentimento.
«A última noite. Dia 6 de março de 2018, 7h00: tocam-me à porta de casa e cai-me o céu em cima...
Alguns minutos depois, e com a autorização dos elementos da PJ, comunico aos meus superiores hierárquicos (do Tribunal e do Conselho de Arbitragem da FPF) o que se está a passar, afirmando a minha inocência.
De seguida, penso em toda a minha família e no que iriam sofrer depois desta "desgraça" ( o meu saudoso pai, Deus o tenha, havia sido internado 2 ou 3 dias antes no Hospital de Guimarães por ter sofrido um derrame cerebral).
No final da busca domiciliária, cuido da minha higiene pessoal e dirijo-me, com a maior das naturalidades (certo da minha inocência), para o meu local de trabalho, deparando-me, lá chegado, com o frenesim e o folclore habitual da comunicação social, que já cercava o Tribunal de Guimarães (ai segredo de justiça que és tão maltratado...).
Tendo exercido, como sempre fiz, a minha atividade profissional no exclusivo interesse do serviço público, foi muito difícil aceitar o que me foi transmitido pelos inspetores da PJ que me bateram à porta.
Desde esse dia que nunca quis ser julgado pelo que enfrentei, mas sim pelos factos de que era acusado e, apesar de reconhecer que a justiça nos últimos anos perdeu o medo à maior parte dos poderes instalados e mostrar ter força para avançar com autonomia, essa mesma justiça não foi justa comigo.
Infelizmente hoje em dia, ser-se arguido é normal (e não deveria ser). Não temos a noção do que é ser-se constituído arguido até ao dia em que o somos. Por isso, não costumamos dar muito valor até acontecer connosco: é horrível...
Ser-se investigado, esmagado e humilhado como pessoa, gera uma revolta e uma raiva inexplicáveis, principalmente quando se é acusado com fórmulas vagas, imprecisas e obscuras (o que, parta quem acusa não interessa, pois o importante é que a semente da dúvida seja plantada, regada e deixada crescer).
Deixar uma pessoa pendurada na suspeição é muito mau e não devia acontecer. Alguém deveria travar isso. Não é o retrato do sistema judicial.
Mas alguém – não sei quem – teve interesses obscuros na minha pessoa, certamente por ser Oficial de Justiça, observador de árbitros e adepto do Sport Lisboa e Benfica, arrastando-me numa rede da qual só agora me libertei.
Fui alvo de acusações absolutamente irresponsáveis, que destruíram a minha reputação e uma carreira imaculada de 40 anos na arbitragem (acrescida de um rombo patrimonial que poucos fazem ideia do que seja e nem perdem tempo a querer saber), e pergunto-me se qualquer suspeita tornada pública é sinal inequívoco de crime consumado.
Pior ainda, é a desconfiança de que nada disto acontece por acaso e de que toda a cultura estratégica foi orientada para obter, não a condenação em tribunal, mas sim nos jornais, nas televisões e na opinião pública.
Apesar de ser, por natureza, uma pessoa impaciente, ao longo destes anos (intermináveis) sabia que tinha de ser paciente, pois o tempo joga sempre a favor da verdade.
Como sabem aqueles que trabalham na área da Justiça, as acusações injustas e sem qualquer sustentação caem com o próprio peso e, felizmente, foi o caso
O mesmo, infelizmente, não acontece a quem destrói, seja por preguiça ou por incompetência, a vida de um inocente.
Aos dois canais televisivos que me azucrinaram ao longo destes anos e aos atrasados mentais anónimos, e não só, das redes sociais, que também infernizaram a minha família, podia tentar fazer-lhes um desenho, mas, honestamente, acho que não é preciso.
Dia 11 de maio de 2023, passaram exatamente 1892 noites (algumas delas mal dormidas).
"The End".
Ao meu advogado, o Sr. Dr. Rui Pedro Pinheiro, que foi sempre, desde a primeira hora, profissional, dedicado, inexcedível e paciente, aquele abraço (sabe o que quero dizer...)
À minha esposa e à minha filha, que muito sofreram ao longo destes anos, um especial agradecimento pelo apoio e pela paciência. Amo-vos.
Aos meus queridos e saudosos pais que, entretanto, ganharam asas e estão no Céu a olhar por mim, o que sempre vos disse: o vosso querido filho não vos desonrou nem envergonhou. Até um dia.
Àqueles que sempre acreditaram em mim – e a maior parte deles sabem quem são, e eu também sei quem são –, o meu agradecimento pelo carinho que, desde a primeira hora, sempre tiveram para comigo e para com a minha família (e foram muitos, alguns deles nem imaginaria...).
Para aqueles que a "clubite" não lhes turvou o discernimento, e que, apesar disso, sempre me apoiaram e acreditaram em mim, também lhes quero manifestar a minha gratidão.
Àqueles que nunca acreditaram em mim e que no seu dia-a-dia se alimentam do ódio clubístico (ou outro), que Deus lhes perdoe pois não merecem que perca mais tempo com eles.
Justiça para quem nela trabalha.
Q.N.P.V.S.C.»
Olhamos para as iniciais com que o Júlio termina o escrito e não percebíamos o que é que elas queriam significar, pelo que lhe perguntamos, tendo o mesmo respondido assim:
«Fui paraquedista militar (e continuo a ser, embora não militar) e este era, e é, o nosso lema: "Que Nunca Por Vencidos Se Conheçam", o qual, infelizmente, na situação atual dos Oficiais de justiça, se nos pode aplicar.»

Fontes: "Tribuna Expresso" e comunicações privadas com o próprio.
