Depois do artigo aqui publicado no dia de ontem, relativamente à miserabilidade do trabalho, um dos leitores deixou um comentário que queremos destacar para aqueles que não leram os comentários do artigo de ontem.
No artigo aborda-se, entre outros aspetos, as dificuldades que os Oficiais de Justiça enfrentam com um vencimento pouco acima do salário mínimo, especialmente quando estão longe de casa, tão longe como hoje estão tantos Oficiais de Justiça formados na ilha da madeira a exercer funções no continente.
A vaga de continentais para as ilhas até deu origem a um suplemento remuneratório para incentivar a ida para ilhas. No entanto isso já não acontece, especialmente com a Madeira, uma vez que a formação profissional em serviços jurídicos naquela ilha tem resultado num grande fluxo de madeirenses para os tribunais continentais, especialmente para a zona de Lisboa e mais a sul, muitos deles colocados oficiosamente, nos locais onde nem os continentais querem estar.
A vida de um madeirense colocado em Lisboa com um vencimento que nem sequer chega aos mil euros, não é uma vida fácil; é uma vida miserável. E é sobre esta vida miserável dos deslocados madeirenses que o leitor Oficial de Justiça tece o seu comentário. Diz assim:
«Muitos passam por dificuldades e são obrigados a viver em quartos exíguos onde cabe apenas uma cama individual, vivem com sete ou mais pessoas, partilham a mesma cozinha. A maioria dessas pessoas é de nacionalidade brasileira.
Afinal também somos imigrantes no nosso próprio País. Sou um desses, sou Madeirense e trabalho há 7 anos em Lisboa.»
Como se isso não fosse suficiente para a miserabilidade da sua vida, acrescenta ainda:
«Estou revoltado com tanta injustiça na Comarca da Madeira. Esta semana recebi a notícia que mais dois colegas vão ser destacados para a Madeira, têm pouco mais de 3 anos de serviço; também pedi o destacamento, não sei as razões do destacamento, mas tem de haver um critério de transparência e equidade.
Por que razão não se declarou estas vagas no movimento se elas realmente existem e por que razão vão estas pessoas, a poucos dias de sair o projeto de movimento? Tanta injustiça e revolta.»
Em suma, o que nos relata este Oficial de Justiça madeirense colocado em Lisboa é triste, não só pela sua vida privada, mas também pela falta de oportunidades e ainda pela sua perceção de falta de justiça.
É esta a vida dos novos “imigrantes” dentro do seu próprio país.

Fonte: “DD-OJ-Comentário”.
