Das intervenções de ontem na Assembleia da República, a propósito do 48º aniversário da Revolução do 25 de Abril, impõem-se destacar a do Deputado José Soeiro do Bloco de Esquerda.
O Deputado, lembrou o que falta cumprir na Revolução dos Cravos, nomeadamente em termos de justiça social para quem ganha baixos salários, invocou as “Novas Cartas Portuguesas”, livro publicado há 50 anos, apreendido pela ditadura salazarista porque confrontava o machismo e o colonialismo, e a memória de uma revolução que “não ficou à espera”.
Segue um extrato dessa intervenção:
«Às 4 da manhã, muito antes da primeira claridade do dia, já um punhado de mulheres saíam da cama para vir trabalhar. Apanharam o transporte às 5 menos um quarto. Chegaram às 6 à Assembleia.
Quando o dia nasceu, muito antes de os nossos despertadores tocarem, já elas tinham lavado a escadaria principal, puxado o lustro com as rotativas às madeiras enceradas dos Passos Perdidos, esfregado as casas de banho. Já elas tinham aspirado de novo as carpetes vermelhas, desinfetado as bancadas desta sala, conferido se os cravos estavam bem espetados nas esponjas verdes que não vemos.
Depois de sairmos, são elas quem recolherá os papéis abandonados nas mesas, quem voltará a lavar as sanitas e a passar a esfregona no chão para as visitas da tarde. O seu trabalho só costuma ser notado quando não está feito.
Quem talhou estas madeiras? Quem ligou os cabos e segura as câmaras? Quem nos transportou até cá? Quem lavou as meias que calçamos? Quem as pôs no estendal e quem as levantou do estendal?
Quem passou as camisas e as blusas e os fatos? Quem fez o pequeno-almoço?
Quem ficou hoje com as crianças e com os mais velhos? Se foi trabalho remunerado, quanto ganham?
Para que esta sessão aconteça, para que a sala esteja pronta para a solenidade, há centenas de pessoas nos bastidores da democracia. Vemo-las mesmo?
Que atenção temos dado, enquanto sociedade, a todas estas pessoas sem as quais o mundo não funciona? Nos supermercados e nas cantinas, nos transportes e nas escolas, nos call centers e nas empresas, nos serviços e na indústria. Nas casas.
Na pandemia, identificámos “profissões essenciais”, “trabalhadores da linha da frente”, chamámos-lhes “heróis e heroínas do quotidiano”. Mas muitas das atividades das quais dependemos continuam a ser as mais desvalorizadas, as mais precárias, as mais externalizadas.
Que atenção tem merecido quem produz aquilo de que precisamos? Que consideração tem merecido quem cuida e mantém a vida?
700€ e poucos euros de salário – eis o que ganha quem limpa o mundo – e o Parlamento.
Se tiver um contrato só de umas horas – também os há aqui – são 300 e poucos euros. Mais 1 euro e 39 para o pequeno-almoço. Subtraia-se o transporte e a renda de casa – o que sobra? Subtraia-se a inflação que galopa – quanto fica para viver?
E não é só delas, as que limpam, a aflição. É de toda a gente que recebe o salário mínimo ou pouco mais, é da maioria.
A quem faz o país funcionar, a democracia não deve apenas gratidão. Deve reconhecimento e justiça.
No nosso país de salários baixos, a elite dos gestores das 15 maiores empresas (onde se inclui a EDP e o Pingo Doce, a Galp e a Mota Engil), aumentou em 90% o seu rendimento no ano passado. Um gestor chega a ganhar 880 mil euros por mês.
Uma caixa de supermercado teria de trabalhar mais de 1250 anos para ganhar o mesmo que o administrador da sua empresa no ano que passou. Quão democráticas são estas desigualdades? Não, não está tudo bem.
É tempo de ouvir todas as pessoas que não estão no retrato emoldurado dos notáveis, que não têm nem terão medalhas nem ruas com o seu nome. Que estão no avesso dos lugares, mas sem os quais não existiriam lugares.»

Fonte: “Esquerda.Net”.
