Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

O eclipse sindical não se deve à passagem da Lua

      Estamos em agosto, mês de areia colada nos pés e, insidiosamente, noutras partes do corpo, e este ano ainda com os óculos especiais para ver o eclipse do sol esgotados.

      Sem óculos próprios (específicos) não se deve inventar mais nada para olhar para o sol, ainda que pareça tapado, porque os olhos não têm sensores de dor, como na generalidade do corpo, e podem estar a ser danificados sem nenhuma sensação e apenas mais tarde se descobrirá o dano que, normalmente, é irreversível.

      Para além deste eclipse do sol que poderá ser visto amanhã e só amanhã, os Oficiais de Justiça podem ver todos os dias um outro eclipse que é o da atividade sindical.

      Claro que as férias judiciais não se aplicam à atividade sindical; os sindicatos não têm períodos de férias judiciais e, no entanto, chegado o querido mês de agosto, tudo estaciona até ao início de setembro, com exceção deste ano que há uma reunião marcada com o Governo para o dia 31 de agosto, portanto, ainda em agosto – uma canseira.

      Bem conhecem os Oficiais de Justiça o eclipse informativo sindical que ocorre a cada reunião com o Governo. Às vezes, tal eclipse, perdura por vários dias, olhando os Oficiais de Justiça pacientemente todos os dias para tentar ver a luz, nada vendo, quer tenham, ou não tenham, óculos.

      E neste sentido se encontram também algumas promessas.

      Na última informação sindical do Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ), datada do passado dia 31 de julho, lia-se assim:

      «Depois de muito ponderar, o SOJ entendeu separar esta matéria – informação sobre a reunião – dos esclarecimentos que terão de ser prestados, publicamente – em nome da decência e da verdade – perante comunicado exarado por outra entidade sindical. Esses esclarecimentos serão apresentados na próxima semana, para que todos os possam analisar, com tempo e devidamente.»

      Ora, a semana seguinte à desse dia 31JUL, é a semana de 03 a 09 de agosto, isto é, a semana passada; que já passou; que já acabou.

      Claro que o SOJ não tem de prestar esses esclarecimentos públicos que disse que ia prestar, mas, se o diz e se até marca um prazo, então tem de o fazer e tem de o fazer dentro do prazo que anunciou e isto porquê? Para ser credível e consequente com aquilo que diz, isto é, para honrar a palavra dada.

      Já não nos bastava a linha vermelha que traçou até ao dia 30JUN – até ao fim do primeiro semestre, como garantiu, – ter desbotado e já não ser vermelha, mas negra, por mais dois meses, eclipsando-se, para já, até 31AGO, vindo agora com mais esta semana que, afinal, já não é semana.

      Não pode haver eclipses sindicais nenhuns com os trabalhadores.

      Não pode haver distribuição de óculos informativos para que os trabalhadores vejam algo e depois acabem por não ver nada.

      E a culpa não é da Lua, nem sequer é dos sindicatos, mas daqueles que não exigem, daqueles que notam o escuro como o breu, que o apontam e nada mais fazem, conformando-se sempre, ano após ano, com o estado da inação e da desresponsabilização da falta de cumprimento da palavra dada.

      E não, a culpa não é da Lua, mas melhor fosse, porque se da Lua fosse a culpa, a ocultação e a escuridão seria apenas de um breve momento; por isso, é pena que a responsabilidade não seja verdadeiramente lunática, mas apenas alienada de uma realidade deformada.

      A retinopatia pelo dano no tecido no fundo do olho que capta a luz (a mácula da retina), pode levar, entre outras coisas, a uma visão turva, à maior dificuldade em ler ou focar de perto, na visão de manchas escuras que se movem com o olhar e também no desbotamento das cores, de todas as cores e não só das linhas vermelhas a que os Oficiais de Justiça já estejam habituados.

      Olhar o astro-rei sem proteção queima a vista, tal como o deslumbramento com as magnificências queima o raciocínio, de certa forma, queima também a visão, mas a visão crítica. Por isso se mostra necessário, aliás, não necessário, mas imprescindível, que haja uma proteção adequada, isto é, uma salvaguarda adequada da visão, ou das visões, seja pela forma como se olha o sol, seja pela forma como se olha, acriticamente, qualquer outro brilho ou aparente intensa claridade do dia a dia que possa tolher qualquer ponderada avaliação.

      Os Oficiais de Justiça carecem de uma boa visão, isto é, de um bom discernimento, ótico e intelectual, que não pode ser queimado nem ofuscado. Por isso aqui fica o alerta e o apelo à cautela.

      Fonte: “Info-SOJ-31JUL-PostScriptum”.

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