Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

O arrulho do amante

      Com o título de “Namoro institucional”, António Marçal aborda, no artigo desta quarta-feira, no Correio da Manhã, os processos negociais na Administração Pública.


      É curioso o título escolhido de “namoro” para classificar a relação institucional com a Administração Pública, logo agora que os Oficiais de Justiça sentem que, para si e entre si, o que houve não foi namoro, mas divórcio.


      A paixoneta foi interrompida, há um tempo de reflexão, e não se sabe bem se o galanteio regressará.


      Diz assim Marçal:


      «Os processos negociais na Administração Pública não podem ficar reféns das crises governativas. Em especial, os que envolvem áreas altamente especializadas, como os Funcionários Judiciais, que exigem continuidade, dado o seu impacto na Justiça e no funcionamento do Estado.»


      Considera Marçal que as interrupções e mudanças governativas são uma chatice. A Democracia a funcionar é aborrecida com tudo sempre a mudar, tudo seria mais tranquilo com uma direção imutável e, portanto, estável. Será que é isto que Marçal quer dizer? Não queremos acreditar, pelo que vamos ver o resto do artigo de opinião.


      Prossegue Marçal:


      «Estas negociações requerem estudo técnico, pareceres especializados e diálogo constante com várias entidades, como os Conselhos Superiores, pelo que a sua paralisação compromete soluções essenciais para o país.»


      Se a escolha da expressão “namoro” nos espantou, ler agora que Marçal considera que há necessidade de pareceres especializados e audição dos conselhos superiores das magistraturas, é algo que nos espanta a dobrar, uma vez que foi precisamente nada disso que sucedeu com a fulminante aprovação da lei laboral sem qualquer audição pública, como sucedeu noutros governos, tendo-se obtido análises muito pertinentes, tanto mais que desta vez não se introduzem apenas alterações na carreira, mas extingue-se a carreira e cria-se uma outra nova e diferente.


      Sabe-se que os enamorados ficam sempre algo inebriados e, consequentemente, com um discernimento perturbado.


      E assim sentencia Marçal:


      «O desenvolvimento de Portugal não pode ser suspenso a cada instabilidade política ou período eleitoral.»


      Certamente, Marçal, pensa na continuidade e no mais do mesmo a que está habituado, sem instabilidades e sem períodos eleitorais, desde logo que introduzam cortes ou suspensões, como sucede em algumas estruturas sindicais e como também sucederá com o próprio quando vencer as eleições à autarquia lousanense, continuando a mesma política do seu partido.


      Por isso, conclui Marçal, há necessidade de “continuar a namorar”.


      «É nosso dever institucional e social continuar a "namorar" o progresso, garantindo que a Justiça e outras áreas vitais do Estado evoluam em benefício de todos.»


      Não, António Marçal, não devemos namorar outra sem antes nos divorciarmos de quem nos sustenta. É imoral querer namorar duas ao mesmo tempo, especialmente se, para conseguir tal namoro, se torna necessário enganar uma ou ambas.


      Já cantava o falecido Marco Paulo a célebre canção “Eu tenho dois amores”, acrescentando que “em nada são iguais”.


      No entanto, Marco Paulo admitia o dilema e afirmava “não saber o que fazer”, concluindo que o melhor seria “amar as duas sem uma da outra saber” e explicava concluindo que “enquanto ninguém sabe somos felizes os três.»


      São complexos estes dilemas do coração, sendo certo que os cerca de 7000 Oficiais de Justiça esperam um enamoramento fiel, sem que os seus representantes se deixem encantar por desvarios e alucinações de cantos de sereias.


      Há Oficiais de Justiça que se sentem hoje traídos na relação sindical. Há Oficiais de Justiça casados e ainda enamorados do seu sindicato há décadas, mesmo há tanto tempo que nem querem acreditar num rompimento, nem na possibilidade de qualquer namorico.


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      Fonte: “Artigo CM divulgado na página do SFJ no Facebook”.

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