Antes de mais convém esclarecer alguns Oficiais de Justiça que no dia de ontem, dia que foi o dia 6, do mês 6, do ano 23, os professores, em greve, manifestaram-se pela reivindicação do tempo de serviço congelado que ficou por recuperar de 6 anos, 6 meses e 23 dias, tempo este que coincide com a data.
Mas se isso e essa coincidência ocorre com os professores, já com os Oficiais de Justiça não se aplica e não se aplica, não por estes terem recuperado o tempo de serviço congelado, mas, bem pelo contrário, porque têm muito mais tempo irrecuperado.
Os Oficiais de Justiça têm pendente de recuperação: 7 anos, 2 meses e 26 dias. Ou seja, se os Oficiais de Justiça quiserem fazer o mesmo tipo de coincidência que ontem fizeram os professores, a data para os Oficiais de Justiça teria de ser para o mês de fevereiro daqui a três anos.
Por outro lado, recorde-se que a recuperação do tempo total congelado aos Oficiais de Justiça, dos 9 anos, 4 meses e dois dias, limitou-se a 2 anos, 1 mês e 6 dias, recuperação mínima esta que ocorreu de forma faseada ao longo dos anos, mas, ainda assim, não serviu todos os Oficiais de Justiça por igual nem de forma proporcional, designadamente, para aqueles que obtiveram as últimas promoções que houve na carreira, que, apesar de congelados de igual modo, não tiveram direito a nenhum tempo de compensação; repetimos: nenhum tempo recuperado.

No que se refere ao apagão da rede informática em todos os tribunais, que aconteceu ontem ao final da tarde, tal não se limitou à rede interna dos tribunais, mas a imensas outras redes públicas e privadas. Ao que se sabe, oficialmente, tratou-se de uma alegada “falha elétrica”. Talvez a senhora da limpeza para ligar o aspirador ou alguém que quis pôr o seu telemóvel à carga e, como todas as tomadas elétricas estavam ocupadas, desligou uma ficha num "datacenter" (centro de armazenamento e processamento de dados) da empresa Equinix. Como se pode ver, a segurança de tantas redes, não só na justiça, mas na saúde, por exemplo, a nível nacional (continente e ilhas) está assim segura: por um fio.
Para além da paragem generalizada do trabalho dos Oficiais de Justiça, seja no processamento dos processos ou nas audiências de julgamento e demais diligências, tudo interrompido e mesmo com dados perdidos, o mais curioso no comportamento dos Oficiais de Justiça não foi vê-los preocupados com a eventual perda de dados relativos ao trabalho que estavam a desenvolver, mas antes preocupadíssimos com a picagem do ponto no Crhonus.
Pelas 17 horas todos tentavam, em vão, a picagem e questionavam-se sobre o que iria suceder por essa falta. São estas as preocupações que atormentam os Oficiais de Justiça; a mesquinhez do dia a dia, devido ao peso do trabalho que os subjuga.
A integração da ação da picagem está já tão interiorizada e automatizada quanto o ligar o Citius ou abrir uma conclusão, é mais uma das muitas tarefas diárias que se tem de cumprir, já de forma automatizada e irrefletida que, quando falha, perturba a rotina e desatina o habituado.

Para além das habituais adesões às greves, seja das horas fixadas pelo Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), seja das tardes inteiras do Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ), os meios de comunicação social continuam a mencionar de forma indelével essas greves, de certa forma considerando-as como uma espécie de mais um contratempo no desenrolar dos processos mediáticos que acompanham.
Ainda assim, os Oficiais de Justiça continuam a persistir na sua luta, cuja visibilidade está praticamente confinada às redes sociais. A seguir vamos colocar algumas das fotografias que connosco foram partilhadas das adesões no dia de ontem. São mesmo algumas e não todas, a título meramente exemplificativo.
Pontualmente, algum comentador ou jornalista destaca um pouco mais, aqui e ali, a luta dos Oficiais de Justiça, não como mero contratempo em qualquer processo mediático que queriam explorar, mas pela luta em si. Claro que isto é raro e, por isso mesmo, quando sucede, é motivo de realce.
E é esse fenómeno de realce que sucedeu ontem num programa que chega ao grande público, nas manhãs da SIC, denominado “Casa Feliz”, que tem um momento, ou uma secção, de análise criminal, debatendo com o seu habitual painel de comentadores, entre eles o jornalista especializado em assuntos criminais Hernâni Carvalho, que, da análise de uma sessão de julgamento em Setúbal, interrompida pela greve dos Oficiais de Justiça, o referido jornalista disse o seguinte – passamos a transcrever:
«Ninguém quer imaginar quantos processos estão pendurados por via da greve dos Funcionários. E nós dizemos: por via da greve dos Funcionários. Ai é? E os 20 anos que os homens estiveram à espera do que lhes prometeram? Há um que é hoje primeiro-ministro que lhe fez promessas quando era ministro da Justiça.
Então? Eu não sou Funcionário Judicial. As coisas que não foram integradas no vencimento e estão prometidas há muitos anos… As pessoas chegam a um limite; há limites para tudo; há limites para tudo!
E há uma coisa que é verdade: dos Funcionários Judiciais ninguém se escapa, porque, mais dia menos dia, tens um problema para ir defender em tribunal, mais dia menos dia, ou uma multa de uma coisa que tu não cometeste ou um vizinho que se chateou contigo ou o quer que seja, ou ser testemunha num processo… Mais dia menos dia tens de lá ir e, portanto, dizer que “Ai, não tenho nada a ver com isso que eu não tenho problemas em tribunal”, é muita indiferença; é um país de mansos.
Estas pessoas, estes políticos, estão convencidos que os Funcionários Judiciais não vão fazer e agora fizeram, e bem! Não é por causa de terem feito com este Governo; se tivessem feito com o Passos Coelho, com o Zé Manel dos Anzóis ou com o Chico da Esquina, para mim era-me indiferente. O que eu quero é um tribunal que ande depressa, mas para isso tem de pagar bem aos Funcionários.»
Estas declarações aqui transcritas também as pode ver e ouvir no vídeo que segue.
Seguem imagens da concentração-manifestação agendada para o dia de ontem, que era do núcleo de Leiria, bem como dois vídeos da cobertura noticiosa em dois canais de televisão.



As três imagens que seguem são alguns exemplos de imagens partilhadas e correspondem, a primeira à adesão à greve do JT e TAC de Lisboa, a segunda foi captada na Amadora e a terceira é no Porto (Tribunal de São João Novo).




