Até ao final do dia de ontem (até às 24H00), nem o Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), nem o Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ), publicou qualquer nota, por mínima e simples que fosse, sobre a reunião com o Governo que estava marcada para começar às 09H00 de ontem.
Entretanto, na coluna de opinião do Correio da Manhã, publicou a presidente do SFJ mais um artigo de opinião, só que, desta vez, ao contrário da banalidade dos outros artigos, o desta quarta-feira revelou-se muito pertinente.
Regina Soares realiza uma análise adequada sobre a situação laboral dos trabalhadores em geral e dos Oficiais de Justiça em particular, com isso apontando e justificando a greve, desde logo a de sexta-feira, mais uma vez, porque já o havia feito antes em nota informativa, apoiando e divulgando a greve de sexta-feira, apesar do SFJ ter retirado todas as greves próprias, voltando agora a considerar a pertinência da greve para os Oficiais de Justiça, embora desta forma indireta.
Recorde-se que retirou todas as suas greves o SFJ e suspendeu o SOJ as suas, na sequência do acordo tripartido assinado, no entanto, o tempo passa e as injustiças não se resolvem, mas adensam-se, o que vem motivando um novo estado de espírito entre os Oficiais de Justiça, ao qual o SFJ não se vem alheando, pelo menos ao nível do seu discurso, faltando a correspondente e devida comprovação prática.
Obviamente, o nível e sentido do discurso tem de ser harmonizado com a prática. Não é possível que se continue a ter um discurso nas publicações e uma prática que o desmente.
Por outro lado, é bem verdade que, até aqui, nem discurso havia, pelo que, ainda que a prática não tenha ainda correspondência com tal discurso, pelo menos já há discurso, o que se pode interpretar como um primeiro passo para o regresso de um sindicalismo verdadeiramente digno de tal denominação.
Segue reprodução do mencionado artigo.
«A greve da Função Pública desta sexta-feira é mais do que uma paralisação, é o reflexo de um país cansado de promessas vãs e de trabalhadores sem reconhecimento.
Fala-se em modernizar, mas oferece-se sobrecarga; promete-se eficiência e entrega-se precariedade; proclama-se valorização, mas as carreiras continuam estagnadas.
Vivemos num Estado que exige resultados sem apostar na satisfação nem na realização profissional, que pede alma no trabalho, mas retira a possibilidade de crescer.
Impõe métricas sem cuidar das condições de trabalho, da segurança, da conciliação e da saúde mental, minando a vontade de produzir.
Vivemos de estatísticas, como aquela que diz que dois comem um frango e metade cabe a cada um, mas na verdade só um é que comeu.
Assim parece o Estado: cheio de números moldados à conveniência, vazio de humanidade.
Nos tribunais, como noutros serviços públicos, há profissionais que envelhecem a servir a Justiça com sacrifício pessoal, ficando à margem como se fossem dispensáveis.
Ninguém faz greve por gosto, faz-se por necessidade de se ser ouvido.
Um país que desvaloriza quem o serve enfraquece-se por dentro e perde o sentido de justiça que o deveria guiar.»
Verde é cor composta secundária.

Fonte: “Correio da Manhã”.
