Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

MJ Não Acerta Uma?

      «António Barreto é das personalidades mais marcantes da vida política e social do país. Sociólogo e estudioso das coisas da Justiça. Foi cronista do Público. Em Novembro de 1996, numa das crónicas subscritas no Retrato da Semana, escreveu: “A crise da Justiça está aí, grave e preocupante”. Organiza um longo catálogo de doenças do sistema judicial. Propõe uma série de caminhos para a solução de muitas questões da crise. Foi quase há vinte anos!


      Os responsáveis governativos e judiciais não lhe ligaram nenhum. Nem a ele, nem a tantos outros.


      A Justiça progrediu na degradação. Ano após ano. Uma organização do “território judiciário” obsoleta e absurda. Comarcas e tribunais instituídos por eleitoralismo e satisfação de ambições megalómanas de autarcas. Prescrições com perdas de milhões de euros do Fundo Social Europeu e outros. Processos num penoso arrastamento sem tempo nos tribunais.


      O novo mapa judiciário, produto acabado ao fim de longos anos, constituiu uma esperança na modernização do sistema judiciário.


      A sua implementação é uma vergonha. Manifestação indisfarçável de incompetência e ligeireza num sector fundamental do Estado de Direito.


      Não só vergonha. Uma humilhação ao povo português. Responsáveis ministeriais consideram o colapso que geraram com incompetência, displicência e desrespeito um “transtorno”! O “crash” do sistema judiciário, a paralisação dos tribunais e congelamento de centenas de milhares de processos durante meses (falta saber o que aí vem) é um “transtorno”, um “mal-entendido”. Meia dúzia de rugas que se dissimulam com botox. Não há contas a prestar, nem responsabilidades políticas e outras a assumir. Sª. Exª., o secretário de Estado da Justiça, numa manipulação de faz de conta, entende que “Houve percalços, mal-entendidos”.


      É paradoxal! O Governo que provocou o coma induzido do sistema judiciário (coisa nunca antes vista!) apela à transparência e à responsabilização!


      A ética e honra políticas reduzem-se a um corpo de palavras.


      O secretário de Estado recusa meter na cabeça que, com tantos “transtornos”, “ mal-entendidos” e indigência intelectual, a sua credibilidade política e a de outros se pulveriza como matéria biodegradável até à poeira final. Só têm uma saída.


      Nas cabeças dos génios de S. Bento, Portugal é um amontoado de contribuintes. De sujeitos passivos. Sugados de impostos e taxas até mais não. Uma terra em que se têm os cidadãos por imbecis. “Piegas” e medricas intimidam-se com a voz grossa do poder. Driblam-se com juras e anúncios de inquéritos.


      A ministra da Justiça faz que vive num mundo fictício. Rejeita olhar a realidade. Marrona e sabichona, a abarrotar de verdades, repete “ad nauseam” que tem por “timbre apurar responsabilidades…”. Em inquéritos!!! A responsabilidade dos outros. Responsáveis são os funcionários administrativos do Ministério da Justiça. Talvez o porteiro e motoristas.


      A ministra não tem responsabilidades. Os governantes não têm responsabilidade alguma. Só causaram “transtornos”, “percalços”, “mal-entendidos”. Já pediram desculpas.


      Um pequeno/grande pormenor : os resultados são o teste genuíno da política.


      Este ministério não acerta uma!»


      Reprodução integral do artigo de opinião subscrito por Alberto Pinto Nogueira cronista do "Público" que o publicou esta última sexta-feira (24OUT) sob o título: "O Ministério da Justiça não acerta uma". Alberto Pinto Nogueira foi magistrado do Ministério Público e Procurador-Geral Distrital do Porto.


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