Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

“Há uma diferença profunda entre funcionar e respirar com normalidade”

      «A Justiça continua a funcionar. Mas quem a vive por dentro sabe que há uma diferença profunda entre funcionar e respirar com normalidade.

      Nos tribunais não entram apenas processos. Entram vidas. Famílias em conflito, trabalhadores em espera, vítimas à procura de resposta, cidadãos que chegam muitas vezes cansados, inquietos, sem saber bem o que os espera.

      A Justiça começa também aí, nesse primeiro contacto, nessa secretaria, nesse balcão, nessa palavra que pode esclarecer ou aumentar a angústia.

      Os oficiais de justiça estão nesse lugar discreto e essencial.

      Tramitam processos, preparam diligências, acompanham magistrados, asseguram notificações, organizam o quotidiano invisível sem o qual nenhuma decisão chegaria a tempo de fazer sentido.

      Quando faltam pessoas, não faltam apenas mãos. Faltam tempo, escuta, serenidade.

      Atrasam-se atos, acumulam-se tarefas, cresce o peso sobre quem fica e também sobre quem espera.

      Não se trata apenas de números, carreiras ou mapas de pessoal. Trata-se da qualidade humana da resposta do Estado.

      Porque cada atraso tem um rosto. E cada rosto merece uma Justiça que não sobreviva apenas: que consiga estar presente.»

      Acabamos de transcrever o artigo subscrito por António Albuquerque, Oficial de Justiça e membro do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), publicado na edição deste último sábado 16MAI2026 no Correio da Manhã.

      Albuquerque intitulou o artigo como: “Justiça em esforço silencioso”, no entanto, permitam-nos que discordemos do título e apenas do título e apenas no que diz respeito à expressão “silencioso”.

      O esforço que se verifica nos tribunais e nos serviços do Ministério Público de todo o país já não é tão silencioso assim, como chegou a ser. Atualmente é cada vez mais audível e barulhento. Não que o barulho seja feito pelo coletivo, organizado ou não, mas por cada um. Assistimos hoje a um barulho individual de cada Oficial de Justiça, desorganizado e desapoiado, mas muito zangado.

      Hoje, os Oficiais de Justiça, em cada secção, mostram-se extremamente zangados com tudo e com todos e disparam em todas as direções: seja com as demais profissões da justiça, seja com os cargos de direção e chefia, seja com as entidades do Governo e seja mesmo com os seus pares.

      Ninguém escapa nesta zanga generalizada com tudo e com todos. O barulho é ensurdecedor e nada silencioso, embora se mantenha dentro de portas e não extravase para outras entidades que deveriam estar bem atentas a tal ruído.

      Chegou-se ao ponto de se considerar que todos estão errados, que todos atuam com segundas intenções, que são bufos, graxistas, corruptos até; expressão esta posta em voga nos últimos tempos e tão fruto de tanta frustração e desinteligência.

      E é nesta confusão e fragor que, embora mal, lá vai andando a justiça; lá se vão segurando as pontas.

      Como bem refere Albuquerque há uma diferença entre sobreviver e ir andando e o respirar com normalidade, mas esta realidade mostra-se hoje acompanhada de uma vivência de especial barulho e tumulto, realidade presente que devia estar a ser bem ouvida.

      Fonte: “Correio da Manhã” e “SFJ transcreve CM”.

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