No Dia Internacional da Mulher, que hoje se assinala, há uma greve feminina. Decorre hoje uma greve “cirúrgica” destinada às mulheres, embora os avisos prévios de greve decretados sejam, óbvia e necessariamente, para todos os trabalhadores (homens e mulheres).
Esta greve feminina ou feminista foi apoiada por cinco sindicatos, que apresentaram para hoje avisos prévios de greve: o Sindicato das Indústrias, Energia, Serviços e Águas de Portugal (Sieap), o Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup), o Sindicato dos Trabalhadores de Saúde, Solidariedade e Segurança Social (STSSS), o Sindicato dos Trabalhadores de Call-Center (STCC ) e o Sindicato de todos os Professores (STOP). Estes sindicatos permitem que as mulheres (e homens) nessas diferentes áreas possam estar hoje de greve e protestar contra a desigualdade de género.
“Todas as vozes contam”, foi o lema sob o qual foram lançadas, há um ano, as sementes para a greve feminista que pretende abanar o país nesta sexta-feira. No passado 8 de março, milhões de pessoas em Espanha fizeram greve e saíram às ruas para reivindicar igualdade de género; em Portugal centenas de feministas concentraram-se em Braga, Porto, Coimbra e Lisboa. Dois dias depois, um Encontro de Mulheres reunia mais de cem pessoas na Escola Secundária Soares dos Reis, no Porto. Ouviram-se desabafos de mulheres de vários quadrantes.
Na sala onde se debatiam as condições das mulheres trabalhadoras, Rebeca Moore pedia a palavra para desabafar sobre as poucas respostas que encontrava para “uma geração sem futuro”: a sua. “Precisamos de um tipo de sindicalismo diferente, onde as questões específicas das mulheres sejam trabalhadas", apelava.
Começava então a caminhada portuguesa para a “greve feminista” – o 8M – de 2019, o braço de uma mobilização internacional que em Portugal é impulsionada pela “Rede 8 de Março”, plataforma de mais de 30 coletivos, de associações a partidos (BE e MAS).
Nos últimos meses, foram criados 12 núcleos por todo o país, com o envolvimento de mais de duas centenas de pessoas. Houve reuniões regulares. E estão marcados protestos de diferentes dimensões para esta sexta-feira em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Viseu, Amarante, Vila Real, Évora, Albufeira, Aveiro, Ponta Delgada, Fundão e Covilhã.
Greve ao trabalho remunerado, à prestação de cuidados, ao consumo e estudantil, são estes os quatro eixos desta “greve feminista”. A redação do manifesto começou em setembro, quando a Rede 8 de Março passou a ser a plataforma organizadora; em dezembro, o texto foi aprovado pelas cerca de 50 representantes de várias cidades que se reuniram no primeiro plenário nacional, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. O manifesto foi apresentado publicamente dois meses depois, em Vila Real, após ser aprovado pelos vários núcleos.
A convocatória para a greve de hoje abre espaço para que outros temas possam ser discutidos, aponta Gonçalo Velho, do Snesup. O dirigente sindical fala não apenas das disparidades na progressão das mulheres na carreira, no acesso a cargos de liderança nos departamentos e centros de investigação ou à difícil conciliação da vida pessoal com a profissional, mas também das visões estereotipadas que limitam o potencial das mulheres na academia.
Quanto ao processo que conduziu ao aviso prévio de greve, Gonçalo Velho recorda que as desigualdades de género têm estado na agenda do sindicato; além disso, a direção do mesmo tem uma representação equilibrada entre homens e mulheres, o que confere mais “sensibilidade” para responder aos argumentos apresentados sobre as várias dimensões da discriminação de género.
Para muitos, contudo, o conceito de greve é visto como estritamente respeitante às relações laborais. No ano passado, nenhum sindicato aceitou o desafio do 8M, levando as ativistas a apelar a “paralisações”. Na grande manifestação do Dia da Mulher, a 10 de março, a dirigente do MDM, Regina Marques, tinha afirmado que a greve feminista em Espanha fora “um show-off muito grande”. “Achamos que elas têm a suas razões para fazer isso, mas nós, em Portugal, não [temos] razões ainda para fazer isso. E porquê? Só metade das mulheres é que são trabalhadoras e têm de fazer greve por razões laborais e não por outras questões”, declarou à agência Lusa.
A realização de uma greve feminista não é inédita, sendo o exemplo histórico mais conhecido a paralisação de mulheres na Islândia, em 1975, para dar visibilidade ao trabalho feminino, em particular as tarefas domésticas. Nos últimos anos, estas paralisações tornaram-se mais comuns, espoletadas pelo movimento “Ni Una Menos”, na América Latina: na Argentina, em 2015, as mulheres pararam em indignação contra o homicídio de uma adolescente. No ano seguinte, voltaram a fazer o mesmo depois de outro femicídio, sob o mote “Vivas nos queremos”. E em Outubro de 2016, na Polónia, as mulheres fizeram uma “segunda-feira negra” para protestar contra o retrocesso nas leis do aborto no país.
É neste caldo que, no início de 2017, um grupo de académicas feministas lançou o apelo a uma paralisação internacional, que se tem repetido e tem encontrado apoio em Portugal através de manifestações no dia 8 de março.
Para a organização do 8M, esta é uma greve que vai além do trabalho assalariado. Andrea Peniche, do núcleo do Porto, descreve-a como uma “greve social”. “A greve feminista vem trazer uma reconfiguração do conceito de greve”, explica ao Públlico. “O que dizemos é que o conceito de trabalho, tal como ele é entendido nas sociedades em que vivemos, é um conceito curto porque não abarca a experiência das mulheres”, afirma. “Existe outro trabalho que as mulheres desempenham na sociedade que queremos ‘visibilizado’, respeitado, defendido e protegido. Por isso o nosso apelo a uma greve social, e não a uma greve apenas laboral."
No final de fevereiro, em Lisboa, a Rede 8 de Março reuniu quatro sindicalistas para falarem da greve. Ao descreverem os processos de debate a nível interno, nos sindicatos, pouco falaram sobre as disparidades salariais, o “teto de vidro” que limita a ascensão das mulheres a cargos de poder – veja-se a necessidade de introduzir leis para atingir um mínimo de 20% de mulheres nos conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa –, o assédio sexual e moral.
Antes, as mulheres que compunham a mesa debruçaram-se sobre as condições de desigualdade em que acediam ao emprego: as horas de tarefas domésticas a desempenhar que representam uma segunda jornada de trabalho, as exigências decorrentes da maternidade, a inexistência de condições contratuais pensadas para pessoas – homens e mulheres, mas sobretudo mulheres – que têm que conciliar o trabalho com a vida pessoal e familiar.
Rebeca Moore estava na plateia. Conta ao Público que a sua vida deu uma volta desde março do ano passado. A então professora de inglês mudou-se de Coimbra para Lisboa à procura de trabalho, estando atualmente num “call center”. Sindicalizou-se.
Na mesa redonda pediu a palavra para relatar como viu o brilho nos olhos das companheiras nas reuniões em que, “finalmente, ouviam a estrutura sindical a falar sobre as suas vidas” – assuntos que as preocupavam e lhes diziam respeito diretamente, reconhecendo que algumas questões “afetam as mulheres de forma diferente porque partem de uma situação de desvantagem”. As ações e debates tentam mostrar que tudo está ligado – da exploração no trabalho às decisões que tomamos sobre o que consumir.
Estas grevistas falam ainda da falta de partilha das tarefas domésticas. E da violência que atinge as mulheres por razões de género – ou seja, por representarem papéis sociais que as colocam numa posição de inferioridade –, em particular a que ocorre nas relações de intimidade. Um dos objetivos desta greve é fazer perceber que a discriminação das mulheres – nas condições laborais, no acesso a cargos de poder na vida pública, ou nos considerandos de um acórdão judicial que se recusa a reconhecer-lhe credibilidade –, está num espectro do qual o femicídio é a expressão mais atroz. Na raiz estão as crenças de que as mulheres podem ser subjugadas – algo que ainda em 2019 pode ser encontrado em correntes de determinados partidos e lido em alguma opinião publicada em Portugal.
Para 14 de fevereiro, dia dos namorados, as associações que organizam a greve convocaram manifestações em cinco cidades – descentralizadas e ruidosas, ao contrário das manifestações silenciosas convocadas apenas para Lisboa –, na sequência da morte de uma mulher e da neta, assassinadas pelo pai da criança, ex-companheiro da mãe.
“Nós reagimos às coisas, não existimos só para fazer a greve internacional das mulheres. A nossa vida não é de 8 de março em 8 de março”, sublinha Rebeca Moore. “Nós vivemos todos os dias com os problemas que nos são impostos e precisamos começar a exigir respostas à altura.”
Nos últimos três anos tem sido essa a estratégia adotada por estes novos movimentos: a de criar pequenos grupos que se mobilizem nas próprias cidades, seja para manifestações de repúdio à violência machista ou para as marchas do orgulho LGBTI. “Uma das preocupações que temos é conseguir chegar também às cidades mais pequenas onde há mais machismo, onde as mulheres também passam por imensas dificuldades, e têm mais dificuldade em se ligarem a estes processos de luta maiores”, remata Laura Viríssimo, do núcleo de Lisboa da Rede de Março.
Em Viseu, por exemplo, o grupo que organiza a concentração do dia 8 é a Plataforma Já Marchavas, que em outubro do ano passado levou à rua a primeira marcha pelos direitos das pessoas LGBTI na cidade. Bárbara Xavier, uma das representantes no plenário de 8 de dezembro do núcleo então recém-criado, conta que o percurso dos últimos três meses passou por reuniões semanais, distribuição de “flyers”, colagem de cartazes.
Para hoje, prevê-se uma concentração das 17h às 20h no Jardim Tomás Ribeiro, com performances, poesia, a leitura do manifesto da greve e a abertura de uma exposição de pintura feminista por alunos da escola Infante Dom Henriques.
Na Cova da Beira, onde as atividades acontecem de manhã no Fundão e à tarde na Covilhã, serão cerca de 20 pessoas mais ativas, sobretudo mulheres mas também homens. Já em Vila Real, o núcleo também integra coletivos que participaram na construção da primeira marcha LGBTI, como o movimento Catarse, mas o grupo é heterogéneo: alunas e professoras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, elementos de partidos políticos como o Bloco de Esquerda, e cada vez mais pessoas sem filiação a nenhum grupo em particular que aderem à causa. Novamente, cerca de duas dúzias de pessoas ativamente envolvidas nas várias reuniões.
“Pode parecer pouco, mas quem conhece um bocadinho os movimentos ativistas e partidários sabe que não é fácil reunir 30 pessoas que, de semana a semana, vão a reuniões das quais sabem que vão sair com tarefas”, sublinha Andrea Peniche. Reconhecendo o impacto das grandes manifestações nacionais, alerta que é preciso cuidado para não isolar ativistas do resto do país. “Tentamos proporcionar a todas as mulheres que se revejam no manifesto e neste dia de protesto a oportunidade de ocupar o espaço público.”

Fonte: “Público”.
