Ontem, para além do fim do campeonato nacional de futebol, com a vitória habitual, mais uma vez, de um dos clubes cujas vitórias se vão intercalando com as do outro; tal e qual o que vai sucedendo a nível político com os sucessivos governos, cuja alternância não significa mudança alguma; vemos como neste pequeno país, os cidadãos se bipolarizam e massificam em grupos de ideologia inamovível, o que não permite a introdução de qualquer mudança efetiva na vida das pessoas.
É uma pena que vençam sempre os mesmos, ainda que à vez, ora uns, ora outros, deixando de fora tantos que todos os dias se esforçam tanto, ou mesmo mais, do que aqueles que detêm as melhores condições e sempre são objeto de toda a atenção mediática.
E vem isto a propósito dos Oficiais de Justiça que, de igual modo, na área da justiça, ao longo das últimas duas décadas, viram todas as demais profissões a serem valorizadas e a deterem toda a atenção governativa e mediática, designadamente, com a implementação de estatutos fantásticos, ou, como, por exemplo, recentemente sucedeu, a simples ameaça de greve ao ato da Distribuição realizada pelos Magistrados do Ministério Público, originou uma reação imediata de reunião já na próxima semana com a ministra da Justiça, enquanto que os Oficiais de Justiça, nem com ameaças de greve nem com greves de facto, conseguem a mesma ou parecida atenção.
Esta diferenciação no tratamento de alguns é uma discriminação muito palpável na sociedade portuguesa, discriminação de alguns que resulta negativamente para muitos, para a maioria, e positivamente para uns poucos.
Os Oficiais de Justiça são a maior massa de trabalhadores da justiça, detendo um número que supera a soma do número de elementos das duas magistraturas juntas, que são minoria, mas que, no entanto, superam largamente as condições laborais da maioria.
Toda a gente vê a injustiça discriminatória no tratamento dos Oficiais de Justiça e até são os próprios sucessivos governos que o vão afirmando, embora depois nada façam para contrariar essa tão manifesta injustiça.
Começa amanhã mais uma greve dos Oficiais de Justiça, greve esta que se constitui como a terceira greve a decorrer em simultâneo. Note-se bem: a terceira em simultâneo. Não se trata de uma ameaça de greve, como a dos outros, nem de uma greve, mas de três greves diferentes que ocorrem ao mesmo tempo e isto é inédito e isto repete-se já pela segunda vez este ano que nem a meio chegou. É já a segunda vez este ano que coincidem e até se sobrepõem três greves dos Oficiais de Justiça, sem que esta anomalia tão grande no mundo laboral suscite qualquer atenção por parte do Governo.
Ou seja, o Governo vem tratando os Oficiais de Justiça, pelo menos, como estúpidos e isto mesmo foi dito ontem na Convenção do Bloco de Esquerda por Mariana Mortágua.
Mariana considerou que o Governo trata “como estúpidas as pessoas que estão a ser empobrecidas” e passou a elencar quem são essas pessoas, disse: “Professores, médicos, enfermeiros, Oficiais de Justiça, trabalhadoras da cultura e tantos e tantas outras sabem que o anúncio da prosperidade é um anzol.»
Em síntese, Mortágua, quis dizer aos portugueses que não estão “condenados ao vexame que a maioria absoluta impõe” e que “o pântano se supera com democracia”.
Esta simples menção aos Oficiais de Justiça num discurso em que a candidata se apresenta à sua eleição na direção daquele partido é algo novo, uma vez que os discursos políticos deste género nunca haviam incluído qualquer menção aos Oficiais de Justiça.
Apesar do pântano e do vexame, podemos notar como a perseverança da luta dos Oficiais de Justiça vem conseguindo lentamente impor-se na atualidade, embora, como dissemos, lentamente, talvez demasiado lentamente, como demonstram estes indícios.
Claro que isto ainda é muito pouco, mas o simples facto de antes não haver nada e agora haver algo, demonstra que o caminho é este e que a luta carece de maior firmeza e afirmação, não só pelo lado da adesão, mas pela apresentação de propostas de luta bem mais vigorosas.
Os Oficiais de Justiça não são estúpidos, estão apenas assoberbados com o trabalho que realizam diariamente em substituição dos que faltam e a falta de tempo impede-os de parar para refletir e agir de uma forma mais contundente. E esperam dos sindicatos que os representam ações bem mais arrojadas, para a superação definitiva do pântano a que chegamos.

Fonte: “Diário de Notícias”.
