Finda a ronda de apresentação dos programas e dos partidos políticos, hoje atrevemo-nos a uma reflexão geral sobre aquilo que poderão ser os resultados eleitorais do próximo domingo, atrevendo-nos numa previsão, baseada nas muitas sondagens divulgadas e nas declarações dos diversos líderes políticos.
Independentemente de quem fique em primeiro lugar, isto é, de quem obtenha o maior número de votos, como bem sabemos e já assistimos, formará governo quem disponha de maior apoio parlamentar, mesmo que não tenha o maior número de votos e o maior número de deputados.
Acreditamos que nenhum dos dois partidos mais votados terão maioria absoluta, isto é, nem a coligação AD nem o PS terão votos suficientes para governarem sozinhos, sendo perfeitamente irrelevante quem tem mais ou quem tem menos votos e deputados, isto é, qual destas estruturas vai ficar em primeiro ou em segundo lugar.
Determinante será, antes, obter o apoio de outros partidos que permita, quer à AD, quer ao PS, uma maioria no parlamento que suporte o novo governo. A isto começamos a chamar “geringonça” e, parece-nos que nestas eleições se tentará criar uma nova geringonça, tanto pela AD como pelo PS. A coligação da AD já é, em si mesma, uma geringonça de três partidos, mas para conseguir a maioria dos deputados, carecem de alargar a geringonça a outros partidos.
Posto isto, parece-nos que serão fundamentais para a formação do novo governo, todos os demais partidos com muito menos votos, com menos deputados, mas com os suficientes para que, somados, formem uma maioria que possa sustentar um governo.
No que se refere ao Chega, todos os demais disseram que não fariam acordos com este partido e, apesar daquela excecionalidade que ocorreu numa das regiões autónomas, em que o PSD acabou acordado com o Chega, não nos parece que nestas eleições legislativas alguém ouse qualquer acordo com o Chega. O próprio André Ventura já foi mudando o seu discurso, passando das exigências de ter presença (cargos ministeriais) no governo, para um discurso de mero apoio, afirmando que viabilizará, mesmo sem contrapartidas, um governo que não seja do PS e da Esquerda.
Assim, tendo em conta a previsão do peso eleitoral do Chega, caso a AD aceite o apoio do Chega, ainda que na incerteza da sua durabilidade, poderá a AD formar governo e governar em minoria. No entanto, acreditamos que a AD procurará estabelecer compromissos mais firmes e seguros, pelo que terá de se voltar para a Iniciativa Liberal, eventualmente, para o PAN e até mesmo para o Livre que já se mostrou disposto a “dialogar com a Direita democrática”.
Por sua vez, o PS, tentará uma nova geringonça com o Bloco de Esquerda, com a CDU, agora também com o Livre e, eventualmente, com o PAN. Colocamos o PAN como possibilidade de fazer acordos à Direita e à Esquerda, uma vez que a sua atitude a isso se presta, sendo o exemplo da única deputada eleita pelo PAN numa das regiões autónomas paradigmático. Por outro lado, a posição do Livre, embora à Esquerda, não fecha portas a ninguém, com a óbvia exceção do Chega, como já afirmou, e poderá, em troca de ver viabilizados alguns aspetos que reivindica, vir a apoiar qualquer um dos partidos mais votados.
Por isso, acreditamos e prevemos que o Chega será sempre ignorado, tentando os dois grandes partidos (AD e PS) criar novas geringonças que permitam alcançar a maioria absoluta de que precisam para uma governação mais estável, sem a participação do Chega.
Perante esta previsão, consideramos que os votos no Chega, servirão a final, sem dúvida alguma, para eleger mais deputados, mas nunca servirão para suportar quatro anos qualquer governo. Assim, serão, inevitavelmente, os partidos menos votados aqueles que construirão os acordos para os próximos quatro anos.
Posto isto, pessoalmente acreditamos que a opção mais acertada e útil será a de tentar canalizar os votos para esses partidos menos votados, uma vez que serão esses que aportarão equilíbrio e contraditório a uma futura geringonça, servindo, ao mesmo tempo, de fiscais mais próximos do governo, desta forma se rejeitando as maiorias absolutas que, como bem sabemos, nunca deram bons resultados.
Assim, por esta perspetiva, quem quiser que o próximo governo seja de pendor de Direita, seja encabeçado pela AD e não queira votar nesta coligação, ou conferir-lhe a liberdade total da maioria absoluta, deverá votar na Iniciativa Liberal ou, em último caso, no PAN e, no limite, no Livre.
Por outro lado, quem quiser que o próximo governo seja de pendor de Esquerda, seja encabeçado pelo PS, mas sem o poder total do absolutismo da maioria absoluta, poderá votar em qualquer um dos três partidos à Esquerda do PS, isto é, no Bloco de Esquerda, na coligação CDU, no Livre ou podendo ainda, como já dissemos, também votar no PAN, uma vez que estes dosi últimos partidos poderão vir a participar num acordo tanto à Direita como à Esquerda, caso o número de deputados que detenham façam falta para compor alguma das maiorias.
Esta é a nossa leitura do panorama eleitoral, baseado nas muitas sondagens, nas diversas declarações políticas e naquilo que é o conjunto do nosso conhecimento geral, também advindo das hipóteses baralhadas nas regiões autónomas e mesmo daquilo que vamos vendo suceder noutros países.
Por tudo isso, acreditamos na constituição de um governo, seja da AD, seja do PS, mas sempre com apoio de outros partidos, não necessariamente a ocupar cargos governamentais, mas com acordos escritos (e mesmo não escritos, como já até declarou a CDU) para verem alguns dos aspetos que defendem (linhas gerais, vermelhas ou verdes) serem considerados ou negociados para implementação.
Portanto, apesar de todos os partidos, votos e deputados serem considerados – menos os do Chega – para a formação de um novo governo para 4 anos, serão os partidos menos votados que, somados, poderão fazer toda a diferença.
Por fim, indo ainda mais longe na previsão, atrevemo-nos a considerar que, uma vez mais, mesmo que a AD recolha mais votos e tenha mais deputados, isto é, que venha a vencer as eleições, mesmo com a ajuda da IL, não deverá conseguir atingir uma maioria que lhe permita formar governo, acreditando que será novamente o PS, agora com uma geringonça mais alargada (em vez de mais dois partidos, agora com mais quatro: BE, CDU, Livre e PAN), o partido que deverá formar governo, governando de forma mais equilibrada e ponderada, sem os desvarios da maioria absoluta, introduzindo na governação as reivindicações e equilíbrios daqueles quatro outros partidos.
Evidentemente que não é nossa pretensão indicar a quem quer que seja onde deve colocar a cruzinha no boletim, devendo esta reflexão aqui apresentada servir apenas como uma análise global possível da leitura da situação político-partidária, com mero intuito esclarecedor da multiplicidade de opções existentes, embora, obviamente, outras leituras possam ser realizadas e, portanto, outras previsões apontadas.
Fica o contributo desta análise e desta previsão que tenta ser o mais imparcial possível, limitando-se à leitura dos factos e dos acontecimentos políticos atuais e do passado recente.

Fontes: Programas eleitorais: AD, BE, CH, CDU-PCP, CDU-PEV, IL, Lv, PS e PAN.
