Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

Em Murça Ninguém Votou

      Em defesa do Tribunal de Murça (cujo fecho está anunciado para 31 de agosto próximo), bem como dos futuros e previsíveis fechos, ontem, as urnas em Murça ficaram vazias.


      Em todo este concelho do distrito e da futura Comarca de Vila Real, cerca de sete mil eleitores não votaram para a eleição dos deputados ao Parlamento Europeu, assim votando em protesto contra o breve encerramento do tribunal, do hipotético fecho do serviço de Finanças, do centro de saúde e até pela prevista introdução de portagens na autoestrada transmontana que é a única via rápida de acesso ao interior transmontano.


      Nenhuma das 85 pessoas destacadas para assegurar o ato eleitoral compareceu em nenhuma das 17 mesas de voto das 7 freguesias que constituem este município transmontano.


      Tem vindo a ser frequente que determinada secção de voto de determinada freguesia boicote os atos eleitorais, tal como muitas houve nestas eleições, no entanto, é a primeira vez que o boicote acontece num concelho inteiro.


      A situação surpreendeu a Comissão Nacional de Eleições (CNE), cujo porta-voz, João Almeida, admitiu não ter memória de umas eleições em que um concelho tenha ficado sem uma única mesa de voto. “Tivemos grandes boicotes, em sítios como a Trofa e Vizela [quando estas freguesias pretendiam passar a concelho, como acabou por acontecer]. Ter um concelho inteiro parado em dia de eleições é algo de que não me lembro”, disse.


      A falta de comparência dos cidadãos que deviam compor fez com que todas fossem encerradas por falta de condições para funcionar.


      O jornal Público mencionava um cidadão que afirmava: “Isto já estava a ser preparado há 15 dias e com o apoio da câmara que até dinamizou.” O presidente da Câmara de Murça, José Maria Costa, contudo, recusou admitir, ao mesmo jornal, essa intervenção no boicote. O autarca fez questão de salientar que a autarquia tem a “responsabilidade de organizar o ato eleitoral”.


      Os partidos não indicaram ninguém para integrar as mesas de voto e, por isso, a câmara teve de destacar 85 munícipes. Desses, 50 ainda avisaram que estariam indisponíveis. Mas o aviso, na sexta-feira, já chegou tarde.


      “Murça não quer ser só lembrada nas eleições. O que se passa em Murça é terrível. É o exemplo do que se passa nos concelhos do interior. Já estavam atingidos pela desertificação e agora ainda ficam sem serviços públicos. O interior tem de tomar uma posição forte”, disse o autarca que apoia o boicote “em defesa dos interesses dos munícipes”.


      “Não estamos cá só para pagar impostos e ficar sem nada. Pagamos para nos deixarem sem tribunal, Finanças e centro de saúde, enquanto o dinheiro vai todo para Lisboa?”, questionava António Morais no café central da vila, onde todos comentavam com orgulho o boicote.


      Ainda não há data para o novo ato eleitoral. O porta-voz da Comissão Nacional de Eleições explicou que, em casos como este, “e se os votos forem importantes para a definição dos resultados”, as eleições repetem-se “no mesmo dia da semana seguinte”.


0