O Correio da Manhã publicou esta semana o habitual artigo de opinião subscrito pelo presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), desta vez intitulado: “Brincadeira!”.
O título é retirado da afirmação de António Marçal de que a atitude da DGAJ e, ou, do secretário de Estado, “Só pode ser brincadeira!”, acrescentando que “de brincadeiras e mentiras andamos todos fartos!”.
De facto, de mentiras estão os Oficiais de Justiça fartos; das mentiras oriundas dos representantes governamentais, destes, dos atuais, e dos muitos outros que ao longo de tantos anos mentiram sucessivamente aos Oficiais de Justiça. Mas tais mentiras só existiram, e existem, não por existirem mentirosos, mas por existirem crentes nessas mesmas mentiras.
As mentiras dos mentirosos sempre encontraram terreno fértil na carreira dos Oficiais de Justiça, porque estes sempre acreditaram nessas mentiras; porque sempre acreditaram que estavam a lidar com pessoas que não eram mentirosas.
Diz o povo que “a mentira tem perna curta”, querendo com isso dizer que fácil e rapidamente se descobre a mentira e, consequentemente, o mentiroso. E não vamos aqui contrariar a sabedoria popular dizendo que só agora os Oficiais de Justiça descobriram as mentiras, tão tarde; nada disso. A sabedoria popular não pode ser contrariada!
Os Oficiais de Justiça sempre descobriram e identificaram as mentiras e também sempre identificaram os mentirosos, no entanto, apesar de tudo isso, espantosamente, sempre mantiveram a esperança de, um dia, surgir alguém que não fosse mentiroso nos cargos de decisão governamental.
Pacientemente esperaram durante anos e anos até que a paciência acabou por se esgotar. Atualmente, os Oficiais de Justiça estão de tal forma esgotados na paciência, também por efeito da grande pressão financeira do momento, que, neste momento, atingiram um ponto de não retorno nas suas convicções e nas suas atitudes.
Hoje, já não é previsível (nem admissível) que os Oficiais de Justiça voltem à paciente espera, nem a acreditar naquilo que os representantes governamentais dizem ou prometem, até ver, “preto-no-branco”, realmente, que aquilo que dizem e que vêm dizendo, se concretiza efetivamente. Até agora nada se concretizou e mesmo assim até já muito foi dito, embora não tudo, pois o silêncio ainda ocupa a maior parte do discurso.
Sim, de facto os Oficiais de Justiça estão fartos de tantas mentiras, como afirma Marçal, mas não apenas no que diz respeito à sua profissão. O sentimento de enfartamento com as mentiras é comum a toda a sociedade portuguesa e os Oficiais de Justiça, como bons portugueses que são e como desempenham funções em órgãos onde sentem todos os dias o pulsar da sociedade, através do contacto com tanta gente que acorre aos serviços judiciais e do Ministério Público, estão necessariamente impregnados e conscientes daquilo que os cidadãos sentem e das provações pelas quais passam.
Esta consciência dos Oficiais de Justiça não é, no entanto, comum àqueles que ocupam cargos muito bem remunerados e desenvolvem a sua atividade em redomas; esses, os mentirosos, nem sequer sabem que estão a mentir, chegam mesmo a acreditar que aquilo que dizem é verdade, só que essa dita verdade é verdade, mas apenas no seu mundo imaginário dos seus próprios espelhos.

Mas o que nos trouxe até aqui, até esta reflexão, foi o artigo do Correio da Manhã de António Marçal e, para quem ainda não o conhece, aqui vai ele a seguir transcrito.
Diz assim:
«Muito mal anda o Ministério da Justiça quando quem devia dirigir os seus desígnios se abstém de uma ação, deixando-os nas mãos de quem demonstrou por diversas vezes que anda a brincar com isto tudo, nomeadamente com a vida dos trabalhadores e as suas legítimas expectativas, mas pior, está a colocar o próprio setor da justiça em perigo.
Não se compreende como é que a hierarquia governamental não é respeitada.
Por um lado, tivemos uma reunião com o senhor Secretário de Estado Adjunto da Justiça que nos disse que está a trabalhar numa solução, entretanto, que já mandou um documento para as Finanças.
Por outro lado, temos uma Direção-Geral que, tendo estado representada na reunião, no dia seguinte toma providencias contrárias ao que ali foi acordado, acossando os trabalhadores.
Só pode ser brincadeira! E de brincadeiras e mentiras andamos todos fartos! Andamos nós, Oficiais de Justiça, mas também todos os outros profissionais do foro e especialmente os cidadãos que assistem a sucessivos adiamentos na sua demanda por Justiça.
Daquela DGAJ só saem decisões incompreensíveis, como temos vindo a provar através de ações que vamos ganhando em Tribunal.»

Fontes: "Correio da Manhã" e "SFJ".
