Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

De A a Z, como perder a Liberdade

      «Sou mãe de duas crianças, talvez por isso obrigo-me a olhar para o futuro com mais atenção do que por vezes me é confortável. Todos os anos em abril lhes falo de liberdade, do que foi conquistado, do que mudou e do que nunca mais queremos repetir. Quero manter vivo neles o quanto o meu pai sonhou, acreditou e lutou para hoje podermos fazer e dizer o que nos vai no coração.


      Este ano, porém, não falarei de liberdades conquistadas, chegou o momento em que tenho de lhes falar de outra coisa. Uma coisa realmente importante. Falarei de como se perde a liberdade. Terei de lhes explicar que não se perde de repente, que não haverá avisos e que não haverá um dia em que tudo muda. Terão de ser vigilantes, pois a liberdade perde-se devagar, com silêncios, com decisões e escolhas que parecem banais.


      E então pensei: como seria o ABC sobre perder a liberdade? Como seria se o colocasse num manual? Provavelmente seria assim:


      “O ABC de como perder a liberdade”


      A - Acredita que isso nunca te vai acontecer


Aqui não. Agora não. Isso é coisa de outros.


      B - Banaliza tudo


Factos, opiniões, mentiras. Tudo ao mesmo nível, nada pesa, nada se confirma.


      C - Cansa-te de pensar


Reagir é mais rápido. Dá menos trabalho.


      D - Deixa de dizer o que pensas


Não vale a pena. Vai dar chatice.


      E - Encaixa


Discordar cansa. Pertencer é mais fácil.


      F - Faz de conta que não é contigo


Há sempre alguém mais responsável ou que se preocupa mais.


      G - Gosta, partilha, comenta


E chama a isso participação ativa.


      H - Habitua-te


Ao ruído. À pressão. Ao ódio constante.


      I - Ignora os sinais


Nada mudou assim tanto.


      J - Justifica tudo


“Também não é assim tão grave.”


      L - Limita-te ao que já concordas


O resto incomoda.


      M - Mede tudo pela reação dos outros


Se agrada a muitos é porque está certo.


      N - Normaliza


Com o tempo, tudo parece aceitável.


      O - Opina sem saber


Mas sempre com muita certeza.


      P - Prefere conforto à verdade


A verdade exige mais de ti


      Q - Questiona menos


Não compensa e podes não ser aceite.


      R - Repete


Parece pensamento.


      S - Silencia-te


É mais seguro.


      T - Torna tudo superficial


Nada merece aprofundamento.


      U - Usa o humor para desvalorizar


Assim nada é sério.


      V - Vive para não incomodar


Liberdade com limites invisíveis.


      X - “Xinga” quem discorda


Substitui argumento por ataque, assim enervas e fazes-te ouvir.


      Z - Zero reação


      Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou. Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade já não é bem aquilo que era. Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás.


      O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida.


      Celebramos Abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças.


      Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.»


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      Fonte: reprodução do artigo intitulado “O ABC de como perder a liberdade”, de Ana Azevedo, publicado em “Esquerda.Net”.

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