Desde tempos cuja memória se perde, desde logo na memória dos outros e mais daqueles que até já cá não estão, desde tais profundezas antigas, que sempre se repetia, a cada ano, a tradição dos jantares convívios das comarcas; daquelas comarcas antigas e pequenas que correspondiam aos municípios, antes da reorganização judiciária implementada em 2014.
Um dos jantares convívios mais comuns era o de final de ano judicial – quando o ano judicial expirava nas férias de verão e nascia um novo ano em setembro (agora o ano judicial corresponde ao ano civil).
Precisamente por esta altura do ano, vésperas de férias, pululavam os convívios. A comunidade judicial e judiciária de cada comarca reunia-se para o momento. Oficiais de Justiça e demais Funcionários de Justiça, magistrados judiciais e do Ministério Público, advogados e solicitadores… ninguém ousava falhar o momento cuja presença ou ausência era notada.
Em são convívio conversava-se de tudo, desde processos a futebol, contavam-se piadas e recordavam-se histórias passadas. Ria-se muito.
Após 2014, com a reorganização do mapa judiciário e a extinção das comarcas cujo território correspondiam aos municípios, extinguindo algumas e integrando as demais na super comarca com amplo território, a comunidade da justiça sofreu um impacto muito significativo.
Depois de setembro de 2014, o relacionamento entre os profissionais do mundo da justiça começou a diluir-se. Os profissionais liberais já não estavam todos os dias nos tribunais locais porque tinham de deslocar-se à sede da nova grande comarca, porque os juízes de Círculo deixaram de ir aos municípios e passaram a sediar-se nos juízos de grande instância central à espera que o povo lá fosse.
A convivência esmoreceu porque as relações interpessoais diminuíram e as que restaram passaram a padecer das contingências da voracidade do tempo e dos números. Veio ainda o mal-estar e as muitas lutas reivindicativas, com greves agressivas que prejudicavam o trabalho e o ganha-pão dos profissionais liberais. Deteriorou-se o contacto, os relacionamentos e o convívio.
Como se a perda de tais convívios locais não fosse suficiente, a nova ordem das novas comarcas inventou os convívios gerais dos denominados “Dia da Comarca” ou afins, com os quais mais perturbou os pequenos convívios locais municipais das antigas comarcas.
Paulatinamente, os convívios foram perdendo presenças e só os mais acérrimos defensores da tradição sobrevivem hoje, ainda que com poucos resistentes, mas resistindo.
Esta noite haverá jantares convívios da família da justiça em muitos municípios do país, mas não em todos e também não em muitos.
A perceção com que ficamos dos ecos que nos chegam faz-nos deduzir que o encolhimento da tradição é muito significativo, mas, claro, é uma mera dedução baseada em informação dispersa e não sistemática, porque não há dados sobre esta matéria.
A indiferença, o desapego, o alheamento das profissões, umas das outras, quase guerreando entre elas ou relacionando-se com frieza é agora o novo momento. Olha-se o outro e o próximo com desdém, não enxergando a perda de valores e de humanidade.
Na justiça não se perde só tempo e dinheiro na profissão, mas afeição, sensibilidade, empatia e amizade para com os demais, que hoje são olhados como concorrentes a abater e não como aliados com os quais se pode contar para vencer.
Todos mais velhos e mais rezingões, desde logo devido ao aumento da idade da aposentação e à perda do fulgor da juventude, mas também devido à precariedade das vidas pessoais, desde logo pela deterioração salarial, não valendo hoje o vencimento de um Oficial de Justiça o mesmo que valia o vencimento do passado.
Tudo trabalhou, e trabalha, para que a convivência interpessoal e interprofissional seja hoje nem sequer uma miragem daquilo que já foi. E a questão que resta é a de saber que caminho percorremos e que ainda caminhamos, para onde vamos e se estamos a melhorar a vida de cada um, porque, atente-se bem, de vida se trata.
O peso das administrações comarcãs esmagaram os convívios locais e dividiram as pessoas por pequenos grupos. Hoje, os jantares também se dividem por pequenos grupos, seja ao nível das secções, seja ao nível de grupos etários ou com apetências comuns. São os grupos dos mais novos, quer em idade, quer em antiguidade na profissão, que já nem sequer organizam a jantarada de convívio, mas o lanche apressado ou até o almoço de convívio no curto espaço de uma hora.
Há perda e há descaracterização e tudo acontece perante o desânimo coletivo, acrescido do melindre que passa a servir de desculpa para tudo e para nada, para acabar na insignificância da profissão atirada, com total crueza e insensibilidade, para um canto qualquer.
Também nisto, e até nisto, as profissões perdem e, em tal perda generalizada, perdem, claro está, os Oficiais de Justiça.

.jpg)