Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

“Apesar de persistirem algumas áreas críticas”

      Imagine o leitor que os réus e os arguidos nos processos eram os responsáveis por deter e gerir tribunais próprios para serem julgados.


      Sim, é difícil de imaginar, mas esforce-se um pouco.


      Não, não são os autores nem os acusadores; são aqueles que vão ser julgados e cujos indícios apontam para que sejam condenados, são esses mesmos os responsáveis pelos tribunais próprios para se auto-julgarem.


      São responsáveis pela colocação de magistrados e Oficiais de Justiça e pela distribuição da carga processual, isto é, da atribuição de um número razoável de processos para cada magistrado e Oficial de Justiça para que os possam decidir, isto é, muito provavelmente para condenar esses mesmos réus ou arguidos, em prazo curto.


      Acreditam que esses mesmos réus e arguidos teriam pressa na resolução dos seus casos? Acreditam que esses mesmos réus e arguidos confeririam todas as condições para que o trabalho daqueles que os julgariam fosse o melhor e mais célere? Ou teriam estes réus e arguidos interesse em que as causas se arrastasse anos a fio, de tal forma que as sentenças já não servissem para nada ou que este emperramento fosse suficiente para evitar a vontade de lhes serem colocados novos processos?


      Esta imaginação, cujo esforço lhe pedíamos não a creia assim tão descabida, porque em Portugal mesmo existem tribunais assim.


      Os Tribunais Administrativos e Fiscais (TAF) são tribunais em que os réus ou acusados se resumem a um: ao Estado Português, ao mesmo Estado que, enquanto réu, tem o dever de manter esses mesmos tribunais a funcionar bem e com rapidez.


      Como já todos sabem, o Estado não tem interesse nenhum em ser condenado rapidamente nem em permitir que os cidadãos tenham confiança e vontade de ali colocar mais processos, isto é, para que atirem mais achas para a fogueira.


      Portanto, como o réu não tem interesse no assunto, bem pelo contrário, por que raio haveria de proporcionar boas condições àqueles que o querem condenar?


      Os TAF geridos pelo réu para a sua própria condenação têm vindo a ser substituídos por tribunais arbitrais, com árbitros escolhidos que se reúnem tranquilamente em privado e decidem, rápido, é certo, mas sem mesma justiça que o Povo pretende que seja aplicada, por igual, para todos.


      Os réus e os arguidos comuns também gostariam de sair dos tribunais e escolher árbitros para verem apreciados os seus problemas, mas não podem.


      Decorrem este fim de semana em Cimbra umas “Jornadas da Justiça Administrativa e Fiscal”, jornadas estas que, na sua abertura, o secretário de Estado e adjunto da Justiça, Mário Belo Morgado, disse, em suma o seguinte:


      «Apesar de persistirem algumas áreas críticas, nos últimos anos a justiça administrativa e fiscal tem-se aproximado das expectativas da comunidade quanto ao seu funcionamento, fruto da implementação de reformas processuais, de novos métodos de gestão e organização do trabalho, da simplificação de procedimentos e do desenvolvimento da informatização.»


      E de facto, após tantos anos de total descalabro e de constante crítica, mesmo a nível internacional, já era tempo de algum governo mostrar um mínimo de esforço em conseguir melhores condições para que esses mesmos governos sejam mais rapidamente condenados. A contragosto lá se fizeram uns investimentozitos para que não se diga que também viraram as costas ao assunto mas, tal como afirma o citado secretário de Estado, ainda “persistem algumas áreas críticas” e essas áreas críticas são quais? São todas. Os TAF continuam a não conseguir dar respostas em tempo útil às pretensões dos cidadãos e das empresas contra os abusos de poder do Estado e o Estado continua a poder continuar a abusar porque as decisões, quando saírem, já não serão eficazes, transcorridos que foram anos; muitos anos.


      Assim, quando Mário Belo Morgado diz que ainda há "umas áreas críticas", a leitura que devemos fazer disso é a de que os governos ainda não resolveram deter tribunais onde sejam julgados com a máxima rapidez e transparência, continuando a fazer de conta que fazem algo e fazendo mesmo pequenas coisas mas, em suma, a manterem as ditas “áreas críticas” que não são áreas concretas ou delimitadas mas todas as áreas.


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