Dizia recentemente Eduardo Oliveira e Silva, em artigo de opinião publicado no jornal “i”, que “Portugal está minado” e nesse artigo dizia assim:
«Só num país minado é que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça afirma que é preciso combater “o fenómeno da corrupção que está instalada […] e que tem uma expressão muito forte na administração pública”, acrescentando que “não se trata de uma simples perceção, mas de uma realidade”. Henrique Araújo disse isto e muito mais numa entrevista ao Nascer do Sol. Acrescentou que a Justiça não é prioridade para o poder político, designadamente os partidos, uma vez que até acha a ministra da pasta bem-intencionada, mas paralisada.
Henrique Araújo está também altamente preocupado com a manutenção da situação dos Oficiais de Justiça, que paralisa os tribunais, defendendo as reivindicações destes profissionais.
A entrevista de Henrique Araújo, conduzida por Felícia Cabrita, é terrível. Desanima qualquer pessoa que procure justiça nos tribunais. Evidencia uma teia indefinida de interesses que nos domina, favorece a corrupção e prejudica gente séria. Imagine-se um potencial investidor estrangeiro de um país com regras e democrático a ler uma coisa daquelas. Será que se atreve a manter a ideia, a menos que queira usar-se de esquemas? É mais do que improvável.
Só tem a noção do caos na Justiça quem tem de recorrer a ela ou é apanhado inopinadamente nos seus meandros. Trata-se de uma área onde é possível fazer reformas por consenso político, envolvendo também os seus agentes. Mas não. Nada se faz porque os partidos não se entendem (nem lhes convém), o governo não se mexe e interessa à teia que vive disso.»
Mas “a teia que vive disso”, não permanece apenas imóvel, como diz Eduardo, porque às vezes move-se e, quando se deteta esse movimento, comprova-se logo que o objetivo é o de criar novas constrições que permitam o desenvolvimento da teia e isto mesmo se verificou com a apresentação do projeto de estatuto dos Oficiais de Justiça.
A “teia” tem como preocupação central os seus interesses e a sua expansão. Quando a “teia” parece generosa a conceder algum benefício para outrem, trata-se de uma simples ilusão, um engodo, ou uma cenoura para burro perseguir. E disso mesmo tiveram os Oficiais de Justiça experiência própria. Da vigarice que lhes foi proposta quase ninguém caiu nela após reflexão, embora inicialmente tenha convencido alguns que só viram a cenoura, para ser comida no imediato.
Os Oficiais de Justiça estão exaustos, exauridos, debilitados… e, nestas circunstâncias, tal como alguém que se afoga se agarra até à pequena palha que flutua, apesar de, num estado de consciência normal bem saber que a palha não o salva, é compreensível que num estado de consciência alterado se considerem hipóteses inverosímeis e se aja de forma improvável. São os efeitos do grande desgaste, de anos e décadas, causados pela “teia”.

Fonte: Jornal “i”.
