Os resultados eleitorais destas últimas eleições legislativas vieram mostrar uma nova configuração do parlamento que corresponde diretamente a uma nova configuração desejada pelos eleitores.
A expressão da maioria dos eleitores consistiu na concentração dos votos em duas áreas principais: por um lado, os eleitores quiseram permitir que o Partido Socialista governasse sem necessitar de negociar nada com ninguém e sem necessidade de prestar contas a ninguém e, por outro lado, decidiram os eleitores também, reforçar a votação nos novos partidos de Direita como o ilusório Iniciativa Liberal e o fascista Chega.
Quer isto dizer, de forma inequívoca, que os eleitores desejam um tipo de governação totalitarista, seja para governar sem incomodar os eleitores, seja para ter mão firme na governação.
Esta tendência na mentalidade de entrega da vida do país a quem decida por si, constitui, de certa forma, uma desistência da participação dos cidadãos na vida política, sem que, no entanto, isso signifique que não se queira rigor na governação, o que fica expresso na subida dos partidos populistas.
Ao mesmo tempo, constata-se que as mensagens mais simples são aquelas que, mesmo quando vazias, alcançam a consciência dos eleitores e convencem-nos. É o efeito “Twitter” que, como se sabe, é uma rede social de mensagens curtas, agora a imperar nas pessoas e a decidir eleições. Os eleitores não pensam demais nem se esforçam em compreender demais, mantendo-se arredados de ideias complexas ou de conceções que exijam mais tempo de reflexão. Acreditam nas tiradas simples, vendo o Mundo desta essa simplicidade simplória.
Apesar de determos um Parlamento composto por uma variedade partidária que antes não se via, o que é muito positivo, vemos também como essa variedade é meramente decorativa.
A tendência atual dos eleitores para uma concentração do poder e para uma justiça populista é perigosa e já só pode ser combatida pela verdadeira oposição fiscalizadora que é a comunicação social. Nos próximos quatro anos terá que ser a comunicação social a expor os excessos e os abusos da concentração do poder, pois em termos de oposição no parlamento, estes ficaram de mãos-atadas.
Neste canal, por esta via, continuaremos a expor e a apelar ao raciocínio dos leitores mas, bem sabemos, que o futuro não se mostra fácil. Se no anterior governo, sem maioria absoluta, foi apresentado aquele projeto de Estatuto, agora, com o à-vontade da maioria absoluta, qualquer projeto que seja apresentado dificilmente será contrariado pelos dois sindicatos que representam os Oficiais de Justiça.
Os Sindicatos e os Oficiais de Justiça fizeram de tudo, nos últimos anos, para conseguir reivindicar pequenas coisas e pequenas alterações estatutárias. E quando se diz que fizeram de tudo, quer-se dizer isso mesmo, de tudo mesmo; desde as grandes greves e concentrações às pequenas greves por horas e minutos, a par de outras tantas iniciativas, algumas até um pouco ridículas, mas de tudo foi feito, conseguindo-se até que em duas leis do Orçamento de Estado viessem expressas instruções concretas para o Governo que, como bem sabemos, nunca cumpriu. Voltar a ver expressa em letra de lei as reivindicações dos Oficiais de Justiça será coisa que não mais será vista.
Os Oficias de Justiça sempre esbarraram contra a barreira do Governo, nunca conseguindo ultrapassá-la, pelo que agora, tendo tal barreira sido reforçada com betão, muito mais difícil será ultrapassá-la, senão mesmo impossível.

