Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
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A mundivisão de Marçal que escapa aos meros mortais

      António Marçal, em declarações citadas pelo Jornal de Notícias, diz entender a revolta dos Oficiais de Justiça pelo acordo que subscreveu com o Ministério da Justiça.


      «Entendo que estejam revoltados, porque são muitos anos de luta. Mas temos de olhar para o cenário parlamentar. Já garantimos um degrau, nada nos diz que, daqui a seis meses, a situação seja a mesma.»


      Afinal, o acordo terá sido por uma questão de cautela relativamente ao seu olhar sobre o “cenário parlamentar”.


      António Marçal, enquanto bom observador dos cenários políticos, excelente politólogo e futurólogo, decidiu para os Oficiais de Justiça aquilo que advém da sua visão do cenário político e não pelo que advém da visão, da decisão e da imposição dos seus associados que representa, ou deveria representar, em exclusividade, ainda que tal representação dos Oficiais de Justiça colidisse com a sua visão dos cenários políticos.


      E caso verificasse que não era capaz de representar os seus associados nos termos que os mesmos desejam e decidiram, porque tal representação colide com a sua visão dos cenários, então competir-lhe-ia renunciar ao cargo e não fazer o contrário daquilo para o qual estava mandatado.


      Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, diz o refrão popular, e no caso de Marçal aplica-se perfeitamente e se não fosse a última oferta dos 3,5% seriam os 3% iniciais ou mesmo os 2,5% anteriores que, afinal, só por si, já tinham dado origem à proclamação da aceitação do acordo.


      Este aspeto do “cenário parlamentar” tem vindo a ser muito explorado nos tribunais pelos delegados sindicais do SFJ que, entretanto, perante o caos, instruídos, iniciaram um processo de branqueamento da decisão considerando-a boa, precisamente porque se conseguiu algo. Claro que se conseguisse menos, também seria boa e se não se conseguisse nenhuma percentagem nova, até se diria que se havia conseguido manter o suplemento e manter os 10%, aliás, como já no passado foi dito, ser a manutenção uma vitória.


      De vitória em vitória até à derrota final. A mensagem que se transmite agora passa também por considerar que este assunto do suplemento não era relevante e que havia que “desbloquear o processo” para passar para “o mais importante”, como refere Marçal, referindo-se à revisão do Estatuto e da tabela salarial como “o mais importante”.


      Ou seja, afinal, a questão do suplemento não era importante, apesar de tanta greve ao longo de tantos anos e de tanta perda de rendimentos, o importante, afinal, é, antes, a visão que Marçal tem também para um novo Estatuto; uma visão que não é mais do que uma ilusão, uma complexa utopia, sem qualquer simplificação e correspondência com a realidade. Esse sonho tem sido vendido (sim, vendido, porque pagam todos os meses uma assinatura mensal) aos Oficiais de Justiça e estes têm-se deliciado a sonhar, assim se mantendo tranquilos com o que há de vir, tal e qual um crente espera o Paraíso “post mortem”.


      Por outro lado, Marçal considera que a questão do suplemento estava bloqueada, que tal bloqueio era da responsabilidade dos Oficiais de Justiça e que só a estes cabia desbloquearem o bloqueio, rendendo-se e aportando a tal pacificação à justiça, desistindo mesmo de imediato das greves das manhãs. É a pacificação.


      Isto é conceção idêntica à daqueles que dizem que a questão da guerra na Ucrânia está bloqueada e para desbloquear a situação e pacificar a região, a Ucrânia tem de ceder todos os territórios já conquistados e a conquistar pelo invasor para que este fique satisfeito e, assim, haja a tão desejada paz. É a pacificação.


      Este tipo de pacificação por rendição só deve ocorrer quando já não haja mais saídas nenhumas e o quando o que está em risco é a própria sobrevivência dos indivíduos. O soldado só se rende quando vê que o seu carregador ficou vazio de munição e não tem outra saída, mas até que isso aconteça vai à luta.


      Em suma, a onda de desencanto nacional dos Oficiais de Justiça, bem como a desvinculação sindical de uma grande quantidade de associados do SFJ, vem sendo classificada como mera burrice e ignorância, uma histeria injustificada desses desencantados, por não perceberem nada de visões políticas nem de desbloqueios negociais.


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      Fonte: “Jornal de Notícias”.

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