Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
publicação periódica independente com 14 ANOS de publicações DIÁRIAS especialmente dirigidas aos Oficiais de Justiça

A minha carta ao Pai Natal

      Querido Pai Natal,

      Escrevo-te hoje com a mão um pouco trémula, não propriamente pelo frio destes dias de dezembro, mas pelo cansaço do peso de quem carrega nos ombros uma Justiça que teima em não ver nada; em manter a venda, não para julgar os casos, mas para ignorar os seus.

      Escrevo-te esta carta não com a leveza nem a euforia de uma criança, mas com a grande responsabilidade de quem mantém as engrenagens da Justiça a funcionar todos os dias.

      Sei que durante este ano nem sempre me portei bem, mas tal não sucedeu por vontade própria, mas por força das circunstâncias e pelas forças maliciosas que me empurraram para alguns comportamentos menos politicamente corretos, mais reivindicativos, porque o ataque aos trabalhadores tem vindo a ser cada vez mais malevolamente concertado e normalizado.

      Por isso, este ano, não peço bens materiais para mim, mas para uma classe inteira que, em silêncio e com relevante sacrifício pessoal, garante que a justiça chegue a cada cidadão.

      Os Oficiais de Justiça estão cansados, Pai Natal, de que a sua profissão seja o pilar invisível do Estado de Direito, e é por isso que, com o coração cheio de esperança, mas também de angústia, te peço apenas a satisfação da necessidade urgente da sobrevivência profissional.

      Para caber no meu pequeno sapatinho 44, são os seguintes quatro pedidos, muito singelos, mas tão importantes:

      .1. O resgate da nossa dignidade

      Peço-te que tragas o reconhecimento. Não queremos apenas números num recibo de vencimento, mas sim sentir que o nosso esforço, as nossas tantas horas extra não pagas e a nossa dedicação tenha valor. Queremos uma carreira valorizada para podermos voltar a olhar para o espelho com o orgulho de quem sabe que o seu trabalho importa. Não se trata de um trabalho meramente burocrático, mas de grande complexidade e risco; porque esta é uma profissão de risco; de grande risco. E o risco não está necessariamente em andar na rua no Serviço Externo, mas no risco de não tramitar corretamente, de não tramitar atempadamente, prejudicando a vida dos cidadãos. Esta responsabilidade carece de especial valorização e não de mera classificação da carreira como tal. É imperioso que a camisola negra que clama por “Justiça para quem nela trabalha” deixe de nos servir, por ter encolhido tanto que já nem sequer faça falta voltar a vesti-la.

      .2. Ombros onde nos apoiar

      Peço que os nossos Sindicatos sejam faróis de força. Que estejam fortificados e focados, para que nenhum Oficial de Justiça se sinta desprotegido na luta contra as injustiças. Que sejam a nossa voz quando a nossa já estiver rouca de tanto bradar (como já está) por justiça para quem a faz. Que se sentem à mesa das negociações sem ter as pernas cruzadas, mas com os cotovelos apoiados e de punhos cerrados, com a força e o peso que a nossa classe merece e anseia. Sem medos, sem pruridos, sem técnicas de silêncio nem de silenciamento. Sem medo, seja do Governo, seja do escrutínio dos Oficiais de Justiça, porque não é pedir muito, é só pedir o que se merece porque os Oficiais de Justiça até se têm portado tão bem que até espanta tanta serenidade, tanto sossego…

      .3. Olhos que vejam a nossa essência

      Peço um milagre de empatia e lucidez para o nosso Governo. Que percebam que, por trás de cada processo e de cada dado estatístico, há um ser humano exausto. Que entendam que, ao desvalorizarem os Oficiais de Justiça, estão a deixar que se apague a chama da nossa profissão e a sentenciar o sistema ao colapso. Se continuarem a ignorar as perdas, perder-nos-ão para sempre e essa será a maior perda da Justiça. Os sinais estão aí: a desmotivação que grassa nas secretarias, a sôfrega contagem de cada dia que falta para a reforma, a fuga para outras carreiras e a desistência simples da carreira, especialmente para quem entrou recentemente e não se revê naquele velho e gasto espírito de sacrifício que alguns Oficiais de Justiça mais velhos ainda se esforçam em manter. Está à vista o desmoronamento. É necessária muita atenção na colocação das escoras e, desde logo, não podem ser definitivas. As escoras são suportes provisórios, não definitivos.

      .4. A luz ao fundo do túnel em 2026

      Por fim, Pai Natal, peço-te que o próximo ano não seja apenas mais um ano no calendário, mas o ano final do nosso novo Estatuto, redigido num único diploma que possa ser a nossa casa, que nos dê segurança, tranquilidade, previsibilidade e que ponha fim a décadas de incerteza. Que seja um Estatuto claro, moderno e digno, eliminando as incertezas, mas garantindo os direitos que há tantos anos aguardam ver a luz. Que possa vir a ser o abraço de paz que tanto esperamos.

      Pai Natal, só queremos continuar a servir, mas precisamos de razões para ficar. Não deixes que o desânimo vença a nossa vocação.

      Sei que estes pedidos não cabem no saco que carregas às costas, especialmente cheio de tantos brinquedos, mas são pedidos com os quais não se pode brincar, ainda que brincadeira possa parecer. É o que os Oficiais de Justiça verdadeiramente precisam para continuar e renovar o serviço que prestam aos cidadãos.

      Despeço-me com profunda esperança, apesar do cansaço de quem ainda acredita.

      Cumprimentos!

      Um Oficial de Justiça.

CartaPaiNatal(DDOJ).jpg

      Esta “carta” é um grito de alerta. Os Oficiais de Justiça querem poder continuar a servir o Povo; querem que a Justiça funcione, mas não pode ser a custo da sua desvalorização constante e permanente.

      Como mais ninguém tem sido capaz de ouvir a chamada dos Oficiais de Justiça, talvez já só reste o recurso a esta figura fantástica do Natal.

      Ninguém pede o impossível, mas apenas a dignidade que tem sido retirada ao longo dos anos. Perda após perda, a massa que compunha a classe é agora invisível pela exiguidade e pela transparência a que chegou.

      Em síntese, esta carta ao Pai Natal reflete a realidade: uma carreira que clama por valorização, por sindicatos que precisam de ser fortalezas e um Governo que tem de acordar antes que seja tarde demais. Para 2026 os Oficiais de Justiça querem a certeza de um futuro.

PaiNatalEspantado(DDOJ).jpg

      Fonte: ideia obtida e desenvolvida a partir de um comentário anónimo colocado há dias nesta página, ao qual pode aceder diretamente por “Aqui”.

0