Chegou ontem ao fim a periódica publicação de artigos de opinião do Correio da Manhã, subscritos por António Marçal, o cessante presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ).
Com o título de “Última Crónica”, Marçal não só elogia o Correio da Manhã, como elogia a “imprensa livre”, “quem dá voz a quem não a tem”, que “permite que a denúncia dos abusos, o clamor pela justiça e o grito dos invisíveis chegue mais longe”, que a “imprensa torna-se megafone e escudo”, etc.
E chega mesmo a citar uma pensadora alemã do século passado que considerava o seguinte:
«A mais radical forma de poder é aquela que dá voz aos que não têm poder.»
Para concluir Marçal o pensamento afirmando que é disso mesmo que se trata: “Quando uma redação escuta e publica aquilo que incomoda, faz mais do que informar – transforma.”
Prossegue agradecendo a quem ouve “mesmo quando o que dizemos perturba e incomoda”, para concluir perentoriamente o artigo afirmando que “Enquanto houver injustiça, haverá quem escreva. E quem publique. Porque a liberdade não é silêncio. É palavra que chega onde precisa de chegar.”
Sim, António Marçal, no seu último artigo, disse tudo isso, estando o seu pensamento claramente com o foco no Correio da Manhã e, eventualmente, noutra imprensa, pena é que o mesmo tipo de pensamento que aqui aplaudimos em cada palavra que escreveu, não se aplique a todas as outras formas de imprensa livre ou de liberdade de expressão.
Nunca nos vamos esquecer dos ataques que esta página sofreu ao longo dos anos, todos eles perpetrados pelo próprio António Marçal, tal como sempre aqui os fomos relatando e documentando. Nunca poderemos esquecer a entrega das impressões a cores dos nossos artigos a um antigo diretor-geral da Administração da Justiça, dizendo-lhe que era preciso acabar com isto, o que ele bem tentou ao, pessoalmente, processar sucessivamente, com vários processos, o criador desta página. Tal como também não conseguimos esquecer outros episódios, como a lista negra lida em voz alta numa sessão sindical, contendo os nomes dos processáveis, ou tantas outras depreciativas conversas, com este ou com aquele, que sempre alguém nos foi testemunhando.
A liberdade de expressão e o megafone daqueles que não têm voz, da denúncia dos abusos, do apelo à justiça, do grito dos invisíveis… não é algo que acontece apenas no Correio da Manhã, nem, muito menos, num artigo de opinião semanal, porque essa forma radical de dar voz aos que não têm poder que faz mais do que informar, porque transforma, ainda que perturbe e incomode, é o que aqui sucede todos os dias do ano desde há mais de uma boa dúzia de anos.
Por isso, como dissemos, revemo-nos em cada palavra de António Marçal, mas apenas em cada palavra deste seu último artigo de opinião, lamentando profundamente que todas estas palavras só tenham surgido agora ao bater da porta e não tivessem sido elas, desde há muito, os alicerces de algo novo que se podia ter construído em vez de desconstruído, de costas voltadas, arreliado, desagradado… precisamente por quem faz de todos esses preceitos citados o seu dia a dia, isto é, por quem se esforça diariamente por cumprir com a liberdade, que não é silêncio, como bem diz Marçal, e que tal liberdade é palavra que chega onde tem de chegar; por isso mesmo escolhemos estas expressões de Marçal para título deste artigo de hoje, por concordarmos completamente com elas; com tais palavras, embora não com os atos.

Fonte: “artigo CM citado em SFJ”.
