Oficial de Justiça

DIÁRIO DIGITAL DOS OFICIAIS DE JUSTIÇA DE PORTUGAL
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A Justiça que tarda a explicar-se presta um mau serviço público e afeta negativamente todos os seus profissionais

      É muito frequente ver comentários públicos na comunicação social, não nas redes sociais, mas nos meios da comunicação social compostos por jornalistas, que, à falta de melhores notícias, dedicam-se ao ataque e desconsideração da justiça, envergonhando todos quantos trabalham no serviço nacional de justiça.

      Fazem-no quase todos os dias, sem nenhum fundamento, com base em perceções e deduções erróneas, com as quais constroem títulos garrafais e dão cobertura nacional ao assunto.

      Todo o esforço diário que todos os que trabalham na justiça fazem é desprezado, aniquilado, porque há um caso qualquer, um único, em que se diz que disse que correu mal, porque alguém acha que não devia ser assim.

      Há muitos comentadores de tudo nas televisões, há os políticos arruaceiros e recentemente juntou-se a todos esses o presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

      Carlos Moedas está numa fase de criticar tudo. Começou com o caso de querer uma polícia própria com poderes reforçados para poder comandar no seu município e mais recentemente passou a criticar de forma vigorosa a justiça, logo depois do caso da turista baleada por acidente na Baixa de Lisboa no âmbito de uma rixa, alegando que a justiça estava perdida, “à deriva”, por ter libertado um indivíduo que julgava detido pelo tiro, quando o foi por diferente motivo daquele.

      Sem perceber nada, sem que os jornalistas percebessem nada, todos deturpando a notícia e fazendo grandes títulos vendáveis, a justiça foi, mais uma vez, denegrida e, com isso, todos os seus profissionais desconsiderados.

      Entretanto, veio a conhecer-se a verdade da notícia e, claro, todos os que difamaram a justiça não se retrataram, ignoraram a verdade e os jornalistas não fizeram as mesmas manchetes.

      É sempre fácil atacar a justiça e seus trabalhadores, porque se mantêm em silêncio e não participam da loucura diária do mundo dos comentadores de tudo, mas é muito mau que a justiça não tenha uma voz sempre pronta a explicar tudo, a repor a verdade imediatamente e não apenas mais tarde, nas sentenças transitadas, quando o assunto já é mais do que passado e a atenção mediática já está noutro assunto qualquer.

      Por outro lado, a verdade, o bom senso, a razão e a racionalidade, são características que não vendem, pelo que a atenção será sempre diminuta ou inexistente.

      A este propósito, foi com muito gosto que vimos, não um título grande, mas uma pequena nota que, com surpresa, vimos assinada pela jornalista Tânia Laranjo, no Correio da Manhã, escrevendo um breve artigo sobre o caso Moedas que intitulou: “É preciso contenção”. E o título desta jornalista é muito curioso quando bem sabemos que, no passado, contenção era coisa que a própria nem sempre possuía. Mas parece estar mais madura, mais sábia e mais contida.

      Diz assim:

      «Carlos Moedas criticou a justiça depois de um suspeito ter baleado uma turista na Baixa de Lisboa e ter sido libertado.

      Considerou a decisão “inaceitável” e afirmou que a justiça estava “à deriva”.

      O problema é que o homem libertado não era o autor do crime.

      Um mês depois, a PJ identificou, através das imagens de videovigilância, os três suspeitos. Estão detidos.

      O episódio mostra a necessidade de alguma contenção por parte de quem exerce cargos públicos.

      Moedas tem legitimidade para exigir resultados da justiça e das forças policiais. Não tem, porém, informação suficiente para transformar uma decisão judicial numa acusação ao sistema.

      Neste caso, a libertação de um suspeito não significava que a investigação tivesse terminado. Significava que aquele homem não era o responsável.

      Um presidente de câmara deve ser particularmente cuidadoso quando faz acusações públicas. Primeiro, os factos. Depois, os comentários.»

      É espantoso como o serviço nacional de justiça tem de ser defendido pela Tânia Laranjo, porque não há nada nem ninguém no sistema a fazê-lo.

      Fonte: “Correio da Manhã”.

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